O Parque Nacional de Aparados da Serra é conhecido por dois principais atrativos, a vista do cânion Itaimbezinho e a trilha do Rio do Boi. Ambos ficam no mesmo cânion e fazem parte da Serra Geral, uma formação rochosa de quando os continentes africano e sulamericano se separaram. No momento da separação dos continentes foram depositadas cerca de 11 camadas de lava que formaram a cadeia rochosa. Os rios, as chuvas e o vento encarregaram-se de esculpir os cânions.

Este parque é vizinho a outro parque mais novo, o Parque Nacional da Serra Geral. Eles são tratados como um único parque, que alguns chamam de “Aparados da Serra Geral”. O Parque Nacional da Serra Geral foi criado em 1992, 33 anos após o Aparados da Serra. Isso porque foi mais fácil criar um novo parque que ampliar o existente. Por essência, deveria ser um único parque representando os remanescentes da Serra Geral. Por esse motivo, recomendamos que leia também o blog do Parque Nacional da Serra Geral, que é complementar a este.

Ao chegar ao parque, fomos pouco estimulados a observar as diferenças entre os cânions. Não encontramos, mesmo de forma estimulada, algo que diferenciasse ou classificasse os cânions: qual é o mais novo, o mais alto, o mais largo, o mais protegido, o com maior biodiversidade, o com maior visibilidade etc. Essa falta de informação acaba desestimulando os visitantes a perceber as diferenças entre os cânions, que nós listamos aqui (reunindo ambos os parques):

Borda planalto dos cânions

  • Itaimbezinho (Aparados da Serra)
    • A visitação é gerida pela Urbia e os ingressos podem ser comprados online ou na portaria
    • O estacionamento é cobrado
    • duas trilhas: do cotovelo e do vértice, ambas autoguiadas
    • A vista da borda do planalto é a mais próxima da cidade de Cambará do Sul
    • Este parece ser um cânion mais novo, com as paredes mais íngremes e que deve estar mais em movimento que os demais, dado que aparenta pedaços de rochas que se desprenderam recentemente
    • Não temos evidências fortes, mas os comentários que colhemos indicam que ele tende a fechar menos que o Fortaleza
  • Índios Coroados (Serra Geral)
    • A visitação ainda não é gerida e nem cobrada, trata-se de área que está em regularização fundiária
    • Há uma pequena trilha a partir da estrada que liga Cambará do Sul a Praia Grande, onde há uma construção
    • É possível avistar as cachoeiras gêmeas ao fundo e também a sucessão de cânions em direção ao norte
  • Fortaleza (Serra Geral)
    • A visitação é gerida pela Urbia e os ingressos podem ser comprados online ou na portaria
    • O estacionamento é cobrado
    • quatro trilhas: do Mirante, da Borda Sul, da Pedra do Segredo e da Cachoeira do Tigre Preto, todas autoguiadas
    • Este parece ser um cânion mais antigo, pois é mais profundo e largo e em formato de V, cheio de vegetação
    • Não temos evidências fortes, mas parece ser o cânion que mais fecha devido ao fenômeno da viração

Interior / rios dos cânions

  • Rio do Boi (equivalente ao Itaimbezinho)
    • A visitação é gerida pela Urbia e os ingressos podem ser comprados online ou na portaria
    • O estacionamento não é cobrado
    • Há uma única trilha, que requer contratação de guia e reserva pelo site da Urbia
    • A trilha tem um ponto final, na vista dos enormes paredões do cânion Itaimbezinho
    • Os primeiros 3,5km de trilha são por uma trilha, os 3,5km finais são cruzando o rio cerca de 10 vezes na altura dos joelhos / coxas
    • Na trilha há duas cachoeiras onde é possível se banhar
  • Malacara (a borda do planalto do cânion não tem visitação permitida, trata-se de área em regularização fundiária)
    • A visitação não tem gestão e está aberta; vimos indícios de que começará a haver um controle e cobrança
    • Há um local para estacionamento pago: o camping no início da trilha
    • Não requer a contratação de guia (no entanto, vale lembrar que andar em um cânion representa riscos adicionais como cabeça d’água e queda de pedras)
    • Há uma única trilha pelas margens do rio, com diversas travessias na altura da canela
    • A trilha não tem um ponto final específico, há diversos poços para banho
  • Churriado (a borda do planalto do cânion não tem visitação permitida, trata-se de área em regularização fundiária)
    • A visitação não tem gestão e está aberta; algumas propriedades privadas tomaram os acessos, mas há uma ponte para acessar o rio
    • Há um local para estacionamento gratuito
    • Não requer a contratação de guia (no entanto, vale lembrar que andar em um cânion representa riscos adicionais como cabeça d’água e queda de pedras)
    • Não há trilha, é subir pelo leito do rio com água na altura da canela
    • Não há um ponto final, qualquer poço permite banho
    • Esta é a trilha mais fácil de todas pelos rios
  • Tigre Preto (equivalente ao Fortaleza)
    • A visitação não tem gestão e está aberta
    • Há um local para estacionamento gratuito
    • O site do parque indica que a trilha requer contratação de guia, mesmo que não haja controle (vale lembrar que andar em um cânion representa riscos adicionais como cabeça d’água e queda de pedras)
    • Não há trilha, é subir pelo leito do rio com água na altura da cintura em alguns momentos
    • Não há um ponto final, há alguns pontos para parada e banho
    • A mata é tão densa que é difícil avistar os cânions acima
    • Esta é a trilha mais difícil de todas pelos rios pela quantidade de aranhas e lagartas, é necessário redobrar a atenção com onde apoiar as mãos

Com base no descrito acima, a real separação entre os parques não está no Aparados da Serra vs o Serra Geral, mas na parte da borda dos cânions com a parte do interior dos rios. A primeira é acessada pela cidade de Cambará do Sul no RS, a segunda pelas cidades de Praia Grande e Jacinto Machado em SC.

Apesar de os parques terem uma variedade enorme de flora e fauna, por cobrirem mata de araucárias e campos sulinos na parte alta e mata densa e de galeria na parte alta, essa beleza é ofuscada pela beleza cênica dos lugares. Os principais atrativos estão em ver a grandiosidade dos cânions por cima e por baixo, que realmente valem a pena.

O Rio do Boi tem esse nome por causa do gado que caía do planalto e cujos ossos eram carregados pelo rio abaixo

Os parques caminham pela borda da discussão do ecoturismo, hoje mais voltados aos atrativos cênicos que a uma visão completa

Sentimos que os parques poderiam explorar ainda mais a questão do ecoturismo, estimulando que os visitantes conheçam e valorizem as singularidades e aproveitem a oportunidade da visita para ir além da foto selfie, mas aprenderem sobre as araucárias, a gralha azul, as curucacas, as formigas, a formação dos rios e cânions, entre tantos outros atributos.

Ao observarmos e perguntarmos à equipe do parque, tomamos conhecimento de três espécies que poderiam parecer idênticas, mas que são totalmente distintas: uma planta, um musgo e um líquen. Observar essas diferenças nos faz refletir sobre a importância dos parques e nos deixa transformados para lidar com recursos naturais quando voltamos para nossas casas, de forma agradável e lúdica, aprendendo na melhor sala de aula que existe: ao ar livre em contato com o mundo natural.

O que saber e fazer antes de ir ao Parque Nacional de Aparados da Serra

  • O parque possui dois principais atrativos: cânion Itaimbezinho por Cambará do Sul RS e Trilha do Rio do Boi por Praia Grande SC
  • O acesso a ambas é por estradas de terra em boas condições, não requerem 4×4, mas requerem cautela, vimos muitos carros com pneus furados ao acessar o Itaimbezinho
  • Os atrativos são geridos pela Urbia
  • Os ingressos do Itaimbezinho podem ser comprados online ou na portaria
  • Os ingressos para a trilha do Rio do Boi requerem reserva e contratação de guia credenciado
  • Há estrutura de banheiros, uma lojinha com café, wifi e ambulância no parque
  • Não há sinal 4G na maior parte do parque

Cânion Itaimbezinho

O nome do cânion é de origem indígena e significa pedra afiada. Ao percorrer o cânion pelo leito do rio é possível ver o formato das pedras e entender a origem do nome. A visitação pode ser feita por duas trilhas: a do cotovelo, com cerca de 6km ida e volta, e a do vértice, com 2-3km ida e volta.

Na primeira há uma vista mais ampla do cânion, da parte onde ele faz uma curva. Há cerca de três mirantes com ângulos diferentes para observar tanto as cachoeiras Véu da Noiva de perto e das Andorinhas ao longe, quanto o ponto mais próximo da trilha do rio do boi.

Neste ponto é possível observar a floresta de araucárias remanescente do outro lado do cânion, em contraste ao pasto mais baixo e com maior incidência de fogo do lado onde a observação é feita.

Na segunda, do vértice, há uma vista mais estreita, mas mais profunda do cânion. Para ir até o vértice é necessário cruzar o rio que forma a cachoeira das Andorinhas, que pode ser vista de perto. O formato completo da cachoeira do Véu de Noiva é visto de lá, mais longe. Neste ponto é possível apreciar a flora das paredes do cânion e os enormes urtigões que são característicos da região.

Sentimos falta de um ponto para entrar nos rios, agregando à experiência, pois caminha-se muito pelo sol. E mesmo em dias nublados o calor pode ser forte, pelo mormaço do local.

Trilha do Rio do Boi

Todos os dias o perfil oficial do parque no Instagram (@pnas_pnsg) indica o nível do rio, as chances de chuva e se a trilha está aberta. Confira com seu guia para não perder a viagem. Aliás, a viagem de Cambará do Sul até Praia Grande pode levar até 1h30. Se possível, pernoite em Praia Grande para ir bem cedo ao Rio do Boi, aproveitando bem a trilha e não somente o ponto final.

O nome do rio foi dado pelo gado que caía das bordas do planalto, fazendo com que os ossos fossem levados pelo rio. A trilha começa totalmente seca por cerca de 3,5km. Trata-se de uma área onde há pouco tempo habitavam famílias, havia inclusive uma escola rural por ali. Procure um guia que possa explicar o estilo de vida dessas pessoas, o que te transportará a um outro mundo.

Chegando ao rio, que é bem caudaloso, caminha-se mais 3,5km, atravessando o rio cerca de 10 vezes com água na altura dos joelhos / coxas. Os guias e o grupo auxiliam nas travessias. Além disso, na trilha passamos por duas lindas cachoeiras.

O final da trilha revela os enormes paredões do cânion Itaimbezinho e nos dão a sensação de sermos minúsculos frente ao que a natureza escavou.

Mais dicas práticas de Aparados da Serra

O parque fecha às segundas (mas o Serra Geral fecha às terças e pode ser visitado às segundas). O fenômeno da viração, quando as nuvens cobrem os cânions, é imprevisível, mas ocorre com menor frequência no outono/inverno e pela manhã. Recomendamos ir cedo, as chances de ver o cânion aberto são maiores.

A concessionária Urbia aceita que os ingressos sejam usados até 6 dias da data marcada para visitação, pergunte na portaria como está a visibilidade antes de utilizar seus ingressos.

Acesse o site do parque e leia o guia para visitantes antes de ir

https://www.icmbio.gov.br/parnaaparadosdaserra/guia-do-visitante.html

No link você pode acessar o mapa por onde passamos e ver em detalhes onde fica cada localidade citada acima:

Um comentário em “Aparados da Serra: dez/21 – um parque da borda cênica

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