Você pode ir ao Parque Nacional dos Campos Gerais e ficar, como nós nos primeiros dias, sem entender o que é esse parque. Visitando alguns locais na área do parque você se depara com negacionismo (“aqui não é parque”), diferente de outros, que explicam que ali é parque, mas que a regularização fundiária não foi feita ainda e, portanto, a terra segue com uso privado.

Soma-se a isso o fato de que os campos gerais foram praticamente devastados às vésperas da criação do parque, resta apenas 0,1%. O pouco que resta, se você não conhecer, vai ser difícil de identificar. Além disso, essa região apresenta furnas e fendas que, se não conhecidas, não darão a amplitude sobre o que são campos gerais. É preciso ir a fundo, se imergir literalmente para conhecer essa beleza.

Este parque é belo e complexo. Importante, mas pouco priorizado. Uma verdadeira corrida contra o tempo na qual não há vencedores e todos nós somos perdedores. Este parque é um misto de campos rupestres de Cerrado e de florestas ombrófilas mistas. Não precisa ter medo dessa palavra, vamos definir como uma floresta de Mata Atlântica com Araucárias para simplificar.

De um lado, temos campos amplos e planos ou com baixa inclinação, onde predomina um solo raso e uma vegetação rasteira de cerrado. Pouca sombra, rochas no meio dos campos e aquelas florzinhas delicadas que vemos no cerrado, o bioma que evoluiu com o fogo e é extremamente resistente. De outro lado temos florestas de Mata Atlântica, com suas árvore centenárias e enormes, cipós, bromélias, orquídeas, ao longo dos rios na mata ciliar e dentro das furnas, tudo isso coberto de muito musgo. É muito complexo e belo ver como essas duas fitofisionomias interagem entre si e os animais percorrem ambos os lados.

O que fazer e saber antes de ir ao Parque Nacional dos Campos Gerais:

  • A maior área do parque está na porção norte, mas o maior número de pontos para visitação ao sul do Passo do Pupo
  • O parque fica próximo à cidade de Ponta Grossa PR, com bons acessos, mesmo que alguns de terra ou cascalho (não requer 4×4)
  • Não há portaria oficial de acesso ao parque, o acesso é feito através de propriedades privadas, incluindo a compra de ingressos e contratação de guias para roteiros específicos
  • Há banheiro, restaurante, lanchonete e lojas em alguns dos atrativos, como no Buraco do Padre, mas não há no interior do parque
  • Na maior parte das trilhas há sinal de 4G, principalmente TIM
  • Este não é um parque no qual os incêndios sejam a grande questão, então o período de seca pode ser uma boa opção, apesar do frio para entrar nas cachoeiras
  • Mas convém olhar além da cachoeira antes de entrar em uma água que veio de uma lavoura onde foi depositado agrotóxico
  • pinturas rupestres no parque, convém se informar e procurar conhecê-las
  • Há também pontos para escalada
  • O Parque Estadual de Vila Velha e seus arenitos e furnas fica próximo a Ponta Grossa, vale também a visita, apesar de ser mais padronizada e com menos liberdade para caminhadas livres, sem tempo definido

Começamos nossa visita ao parque na Cachoeira e Canion do Rio São Jorge. Esta é uma propriedade particular que fica ao norte do parque, cujo acesso é feito por estrada de terra, que não estava em boas condições. Apesar de termos sido informados que não era parte do parque nacional, essa propriedade ainda não recebeu indenização pela regularização fundiária e por isso mantém a visitação às cachoeiras, camping, restaurante e banheiro.

O rio São Jorge neste trecho é bastante caudaloso pelo canion que leva à bela cachoeira. Seguindo um pouco abaixo da cachoeira é possível ver os musgos e algumas pinturas rupestres nas pedras. Além disso, a propriedade tem uma placa explicativa da origem e evolução geológica e biológica da região, onde vale a pena investir alguns minutos. Infelizmente não há remanescente de campos rupestres e bem pouco de floresta original no local.

Seguimos então para a parte sul do parque, começando pelo Complexo do Buraco do Padre. Lá começamos a ter uma outra perspectiva e entendimento sobre o parque. Há uma estrutura moderna e voltada ao ecoturismo, bem como uma proteção evidente e crescente da região.

No Complexo é possível visitar o Buraco do Padre, propriamente dito, uma furna de 40m de profundidade por onde corre uma cachoeira e onde vivem os andorinhões. Os andorinhões são aves não migratórias que, por suas características físicas, não pousam no chão, somente em encostas, gostam muito de ambientes como grutas, cavernas. Vale a pena ir logo cedo ou no final do dia para ver o baile dos andorinhões saindo ou voltando. O Buraco do Padre pode ser visitado tanto por dentro quanto por cima, de onde avista-se não somente a cachoeira, mas também a saída e retorno dos andorinhões.

Parte da propriedade hoje é arrendada para lavoura de soja e aveia. No final deste ano a terra deve deixar de ser arrendada para uso exclusivo de turismo e reflorestamento. Será um prazer voltar a esse belo local e vê-lo ainda com mais verde, já que diversas araucárias foram plantadas nos últimos 15 anos, o que nos permitiu vê-las no seu estado adulto (formato de guarda chuva) e juvenil (formato cônico). Quando chegam à idade adulta, elas não somente mudam de formato, mas começam a dar os pinhões.

Ainda no Complexo, fomos conhecer a Fenda da Freira. Esta região foi formada há centenas de milhões de anos e era o fundo do mar. Há, inclusive, diversos indícios como os icnofósseis e as sucessivas camadas de areia que foram se depositando. As fendas foram formadas quando o chamado arco de Ponta Grossa ergueu-se e criou essas fissuras paralelas. A água argilosa de cima que caía nas fendas corroía as mesmas, formando buracos embaixo da terra. Alguns desses buracos cederam, formando as furnas ou dolinas (o oposto de colinas).

Na Fenda da Freira é possível ver os icnofósseis, a cobertura de musgos, os paredões enormes que entram por mais de 300 metros, dos quais 100 metros podem ser visitados com guia e capacete. Foi uma primeira imersão para entender como os campos lá de cima se relacionam com as florestas lá embaixo.

Depois dessa imersão, fomos conhecer a Cachoeira da Mariquinha. Fica também ao lado sul do parque em uma propriedade com mirante, camping e restaurante. A cachoeira é bela e imponente, mas ficamos em dúvida quanto à qualidade da água, dado que logo acima havia uma lavoura grande, onde certamente são usados agrotóxicos.

Essa completa exploração da terra em uma mesma propriedade nos deixou confusos quanto às intenções e ao futuro do que ainda resta. Não vimos nenhum campo remanescente, era tudo lavoura. O pouco que resta é a mata ciliar (floresta), que vai ao longo dos rios onde chegam os agrotóxicos. Tomamos conhecimento que a água de Ponta Grossa contém todos os agrotóxicos que são permitidos, e aqui foi o que mais nos chamou a atenção.

A gruta dos quatis é um passeio curto e belo, compensa parcialmente o que nos entristeceu ao ver a vista e a devastação ao nosso lado e ao longe.

Se você procura algo formatado e com infraestrutura de restaurante ou banheiros, vá ao Buraco do Padre; Se procura entender mais a fundo esta região, ter uma experiência de extrema qualidade e profundidade caminhando pela região mais protegida, vá ao Refúgio das Curucacas

Se tiver tempo, vá a ambos e saia transformado desse parque; recomendamos!

O maior presente da expedição ficou para o final e aconteceu quando conhecemos o Refúgio das Curucacas. Liderado pelo Guilherme, eles têm camping, caminhadas, escaladas e cicloturismo. Além de roteiros guiados, eles oferecem alternativas autoguiadas, com briefing completo e material para interpretação ambiental. Não havíamos visto até hoje um local com tal qualidade e consistência no trabalho de ecoturismo, eles se tornaram uma referência para nós.

A primeira atividade com o Guilherme foi uma travessia até o Buraco do Padre. Já havíamos visitado, mas havíamos chegado de carro em um dia de feriado. Valeu a pena ir novamente tanto por ser um lugar belíssimo quanto pelo que agregamos de conhecimento no caminho. Percorremos o caminho paralelo ao rio Quebra Pedra, que desemboca no Buraco do Padre. Conseguimos não somente ver os campos rupestres, mas também diversas espécies endêmicas, inclusive em período de floração, como o cacto bola.

Percorremos grande parte das reservas legais das propriedades de agricultura, que antes não eram usadas por ninguém e hoje são caminhos de ecoturismo, passando por furnas, campos, rios e fazendo inclusive um banho de floresta, um conceito japonês chamado de shinrin yoku. Conhecemos também o setor macarrão do Complexo do Buraco do Padre, frequentado por escaladores, onde há pinturas rupestres e um visual bastante diferente entre as pedras e floresta.

No dia seguinte fizermos uma imersão em uma das furnas das Furnas Gêmeas. Foi uma experiência sensitiva sair do campo de cerrado acima, onde fazia calor e não havia sombra, com sua vegetação rasteira, e caminhar descendo até o fundo da furna. De cima é possível ver as árvores que ficam na furna, mas somente lá embaixo é possível ver a complexidade que a mata atlântica coloca na nossa frente. Um emaranhado de árvores, cipós, bromélias, fungos e outras espécies, tudo coberto de muito musgo. As árvores altíssimas denotam o quão protegido está aquele local onde não chegaram os tratores quando foi feito o desmatamento da área entre 2002 e 2005, logo antes do parque ser decretado. O ar puro, a temperatura, a luminosidade, tudo muda. Só descendo presencialmente para perceber.

Por último, não resistimos e nos rendemos a uma tarde de escalada. É um esporte que tem cruzado nossos caminhos e não temos feito por diversos motivos. O tempo estava bom, o instrutor era excelente, o material de segurança também e tínhamos tempo. Foi muito divertido e desafiador, deu vontade de continuar mais algumas horas, mas os braços e as pontas dos dedos não davam conta. E deu vontade de voltar para continuar nas mais de 10 vias que eles têm disponíveis.

No link você pode acessar o mapa por onde passamos e ver em detalhes onde fica cada localidade citada acima:

Um comentário em “Campos Gerais: outubro/21 – o parque da imersão

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