Escolhemos o Parque Nacional do Itatiaia como primeiro destino na nossa expedição por ser um parque com uma boa infraestrutura de acesso e interna, por ser muito próximo de SP (e do RJ), por já conhecermos uma parte e por ter sido o primeiro parque nacional brasileiro, fundado em 14/06/1937. A nossa visita coincidiu com o aniversário de 84 anos do parque, e quem recebeu os presentes fomos nós!

Campos de altitude na travessia do Rancho Caído

Itatiaia, em tupi-guarani, significa pedra pontiaguda

Começamos nossa expedição pela parte alta, onde visitamos o pico das Agulhas Negras, o 5o mais alto do Brasil e o mais alto do RJ, com 2.791 metros de altitude, o cume do maciço das Prateleiras, o cume do morro do Couto e fizemos também a travessia do Rancho Caído. Caído ficou o nosso queixo em cada um desses atrativos.

Vista do Agulhas Negras a partir do Abrigo Rebouças

O que fazer e saber antes de ir à parte alta do Parque Nacional do Itatiaia

  • Veja os atrativos que o parque oferece: https://parquedoitatiaia.tur.br
  • Saiba que a entrada do parque fica mais próxima de Itamonte/MG que de Itatiaia/RJ
  • A partir da Dutra (BR116), você pega a BR-354 para Itamonte e a partir da Garganta do Registro são mais 14km em uma BR bastante esburacada; procure usar veículos altos e prever uma hora para esse último pedaço do caminho
  • Os ingressos devem ser reservados e comprados com antecedência, o estacionamento pode ser reservado antes ou na hora: https://parquedoitatiaia.tur.br/ingressos-2021b/
  • Faz bastante frio na região, é uma das áreas de maior altitude do país; seja inverno ou verão, vá preparado com roupas de frio
  • Nenhum dos atrativos requer guia obrigatório, mas alguns equipamentos como cordas e cadeirinhas precisam ser apresentados dependendo de onde você for (Agulhas Negras e cume do Prateleiras, por exemplo); o próprio site do parque fornece uma lista de condutores credenciados de acordo com o conhecimento / categoria
  • Não há restaurante ou lanchonete na parte alta do parque, o mais próximo é na Garganta do Registro
  • Há bebedouros no Abrigo Rebouças e a maior parte dos rios tem água potável
  • As pedras são realmente pontiagudas, mas não cortantes; Preferimos não usar luvas para não perder a sensibilidade, logo à noite a mão já estava 100%!

Na região da parte alta, ficamos estacionados / hospedados na RPPN Instituto Alto Montana, que fica na cidade de Itamonte / MG. Fomos muito bem recebidos por toda equipe, especialmente pelo Vinícius/Coruja, que é o responsável pela gestão do uso público, e agora também é amigo nosso! RPPN significa Reserva Particular do Patrimônio Natural e não está diretamente vinculada ao parque, mas o fato de estar no entorno não é um acaso, há muita interrelação entre a reserva e o parque.

Este foi o canto que prepararam para ficarmos na RPPN, maravilhoso

A fazenda onde fica o Instituto Alto Montana tem 1.049 hectares, dos quais 1.007 de floresta, 17 nascentes permanentes, 284 espécies de aves registradas, bem como cachoeiras, high-line, produção agroecológica, entre outros, além de receber e orientar diversas atividades de pesquisa e educação.

A fazenda Pinhão Assado, onde fica a RPPN, era usada para plantio de batatas e pastagem até 80 anos atrás, quando essas atividades foram abandonadas, foi construído um hotel e a floresta regenerou-se naturalmente, sem plantio específico. A proximidade do parque deve ter ajudado nesse processo, de onde os animais vieram, trazendo sementes.

Eles nunca haviam recebido um trailer e mesmo assim nos receberam com excelência: desde a preparação até a vista maravilhosa do por do sol onde estacionamos, passando pelo bar / jantar, até toda infra que prepararam para nós (energia, água e descarte de esgoto). O mais marcante, no entanto, foi a troca que tivemos com quem trabalha e se hospeda por lá.

Vinícius, o Coruja, nos ensinou muito na nossa estadia na RPPN, além de ter sido uma super companhia

Além de trailers, que agora estão mais que preparados para receber, eles recebem turistas para day-use e para estadia no refúgio. Mesmo que esteja de passagem, recomendamos a visita: https://www.institutoaltomontana.org e acompanhar o lindo por do sol de lá.

Quando ir? Preferimos a época de outono / inverno, quando as trilhas estão mais secas e o céu mais azul.

O sapo flamenguinho, símbolo do parque, só pode ser visto no verão, quando a temperatura para entrar nas cachoeiras é mais agradável.

No parque fomos orientados / guiados pelo Alberto, que, além de ser apaixonado pela região, pelas montanhas e pela natureza, tem uma visão excelente da capacidade de cada um, sendo muito prudente em todos os percursos e nos ensinando muito sobre a região. Alberto hoje, além de guia, é nosso amigo. Ficamos de voltar em três anos e fazer a travessia do Couto até Prateleiras com ele, é um dos atrativos que ele mais recomenda fazer.

O Agulhas Negras é o atrativo mais icônico da parte alta do parque. Com diversas vias de acesso, o cume pode ser atingido em 3-4h com auxílio de cordas. A caminhada começa do Abrigo Rebouças por aproximadamente 30min em local plano, quando começa a escalaminhada + escalada.

Caso não se sinta confortável / em condições físicas de subir, não deixe de ir caminhar pela parte alta. Os atrativos estão à vista pela estrada que corta o parque. Só isso já vale a visita. Ficar acima das nuvens é uma sensação deliciosa.

O caminho para o cume do maciço das Prateleiras também começa no Abrigo Rebouças, mas em outra direção, sentido parte baixa do parque. Após cerca de uma hora margeando um rio, começa a subida, que é mais tranquila que do Agulhas. Mas o final é mais puxado e pode ser mais tenso para aqueles com medo de altura, existem pontos em que a visão é bastante inclinada e alta. Mais uma vez, um guia experiente e com equipamentos de qualidade é fundamental para ajudá-lo a chegar ao cume maravilhoso.

No dia que fomos ao cume do Morro do Couto iniciamos a subida em meio a uma geada, tamanho o frio que havia feito naquela madrugada. A região é conhecida pelas temperaturas abaixo de zero! A trilha é bem mais tranquila que a dos dois primeiros picos, mas o final é bastante íngreme. A vista de lá de cima é um espetáculo: Serra Fina e a Pedra da Mina (2.798m de altitude!), Prateleiras, Agulhas Negras, vale do Paraíba, Pedra do Altar, entre outros. A vegetação é bem rasteira e com florzinhas pequenas, típicas das plantas que precisam otimizar mais ainda o uso de sua energia.

Na parte alta a vegetação é bem rasteira e com florzinhas pequenas, típicas das plantas que precisam otimizar mais ainda o uso de sua energia.

O parque conta também com algumas travessias, a maior parte na parte alta. Vale lembrar que para realizar as travessias pode ser necessário reservar acampamento ou refúgio antecipadamente, o que pode ser feito no mesmo link que informamos acima. Realizamos a Travessia do Rancho Caído, que foi uma das trilhas mais bonitas que já fizemos.

Começamos a trilha por volta das 7h30, quando a neblina ainda predominava e havia uma possibilidade que o tempo não chegasse a abrir. No final, essa neblina foi um dos pontos altos da travessia, tanto pela visão “embaçada” no início quanto de termos observado a mesma se dissipar e abrir espaço para a vista das montanhas e da vegetação ao longo da trilha. Passamos pela cachoeira do Aiuruoca, a de maior altitude do Brasil, e descemos em uma floresta entre as nuvens rumo à cachoeira do Escorrega do Maromba.

A travessia do Rancho Caído tem cerca de 21km e termina no Escorrega da Maromba.

Como na travessia você não volta do ponto inicial, é importante reservar antes um “resgate” do outro lado. A Dani foi a nossa resgatista, com seu super bom ânimo e contando todas as histórias sobre high-line na volta para a gente. A ida a pé levou cerca de 8h30min, a volta de carro levou cerca de 2h30min.

Depois de visitar a parte alta e nos despedirmos da nossa primeira parada como se quiséssemos ficar por anos ali, partimos para a parte baixa do parque, onde visitamos o complexo da Maromba, o centro de visitantes, a trilha dos Três Picos e o Mirante do Último Adeus.

Vista do Mirante do Último Adeus

O que fazer e saber antes de ir à parte baixa do Parque Nacional do Itatiaia

  • Veja os atrativos que o parque oferece: https://parquedoitatiaia.tur.br
  • Saiba que a entrada do parque fica em Itatiaia/RJ
  • O acesso é totalmente asfaltado e de boa qualidade, qualquer carro consegue acessar tanto para chegar à portaria quanto para se locomover internamente
  • Os ingressos não podem ser reservados e são vendidos somente na portaria
  • Apesar de menos que na parte alta, faz bastante frio na região da parta baixa, a mata é bastante fechada
  • Há bastante fauna nessa região, incluindo macacos-prego, quatis, lobos-guará, bem como muitas espécies de aves – leve e tenha a câmera preparada, mas lembre-se que esses animais são silvestres e não devem ser alimentados ou tocados, o ideal é não se aproximar para sua e a segurança deles
  • Nenhum dos atrativos requer guia obrigatório
  • Há restaurante / lanchonete / hotéis depois de passar a portaria da parte baixa do parque
  • Há bebedouros nos principais pontos e a maior parte dos rios tem água potável

Na região da parte baixa, ficamos estacionados / hospedados no Hotel Donati. Já havíamos nos hospedado anteriormente no hotel e desta vez tivemos uma experiência diferente, mas igualmente aconchegante. Nos ofereceram eletricidade e água encanada, ficamos em um lugar rodeado de árvores e flores, ao lado da cabana favorita do artista Guignard (https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa8669/guignard).

O hotel, além de ser extremamente bem localizado, tem piscina de água quente, sauna e diversas trilhas a partir dele mesmo. Os macacos-prego vieram visitar próximo à hora do almoço, mas não foram alimentados e voltaram para seu caminho naturalmente. A Nalu, quem já conhecíamos de outras vindas, nos contou a história do hotel, que é mais antigo que o parque, de 1931, bem como as diversas ações e cursos que promove no hotel: https://hoteldonati.com.br

Começamos nossa visita pelo Complexo da Maromba, que inclui três cachoeiras distantes uns 500m uma da outra. O acesso é extremamente fácil e a floresta é extremamente rica, com árvores altas e espécies em perigo de extinção como a Samambaia-açu (conhecida como xaxim) e o Jussara (que antes era de onde se retirava palmito para alimentação). Os rios que vimos nascer na parte alta cortam a parte baixa em lindas cachoeiras. Deu vontade de entrar, mas o frio não permitia nesta época do ano.

Em 2017, por ocasião da comemoração dos 80 anos do parque, foi inaugurado na parte baixa um Centro de Visitantes, onde a história e as características geográficas e de biologia do parque são contadas de uma forma bastante clara e didática. Diversas fotos e espécies de animais conservados estão expostos, de forma que aprendemos quem eram os habitantes originais desse local (índios puros), como se transformou em parque nacional e quais animais já foram vistos por lá, inclusive em armadilhas fotográficas.

Itatiaia são dois parques em um: as partes alta e baixa são complementares e com belezas singulares

Ainda na parte baixa visitamos o que acreditamos ser o atrativo menos escolhido entre os visitantes: a trilha dos três picos. O pessoal que frequenta a parte de cima do parque tende a ser de montanhistas e escaladores, procurando trilhas mais íngremes e com maior nível de dificuldade. O pessoal que frequenta a parte de baixo do parque tende a procurar cachoeiras e passeios mais leves. Pois bem, a trilha dos três picos é uma trilha mais puxada na parte baixa!

A neblina nos acompanhou em quase a totalidade da trilha, o que a tornou ainda mais bonita. No pico onde chegamos, vimos como as plantas são engenhosas em captar água das nuvens. Ou seja, mesmo quando não chove, elas encontraram uma forma de absorver água para elas e para o solo, espalhando essa riqueza para as demais plantas que têm outras especialidades e capacidades. Disso trata-se a natureza, as diferentes espécies que se complementam e se auto-sustentam.

Parque Nacional do (maciço) do Itatiaia; não é o Parque Nacional de (da cidade de) Itatiaia ; )

Tivemos ainda o prazer de conhecer o responsável pela gestão do parque, Luiz Aragão. Desde que chegamos ao parque ouvimos falar dele, todos com opiniões unânimes sobre sua vontade e capacidade de gerir esse importante parque nacional e com uma visão de conservação-lo através de maior atratividade de turistas e com muita proximidade da comunidade no entorno do parque.

Tivemos a oportunidade de interagir e ver a energia que ele tem e coloca nesse parque, ficamos contagiados e certamente voltaremos para ver o que está sendo criado.

Aragão planeja instituir a abertura da temporada de montanha em 2022, algo que já é feito em outros parques e que já vinha sendo feito pelos montanhistas e pela comunidade há algum tempo, mas agora com apoio do parque.

Vimos também que o parque é um atrativo e colabora para que turistas movimentem a região, mas ainda é pouco explorado e alguns pontos com relação à infra-estrutura, sob responsabilidade de uma concessionária há pouco tempo, ainda requerem ajuste, como o site para compra de ingressos, a orientação na chegada e o acesso à parte alta, esta fora do escopo da concessionária.

Acreditamos que a gestão atual do parque permitirá que mais pessoas sejam atraídas, visitando e se beneficiando do parque. Com isso, certamente contribuirão para o ciclo positivo de conservação da natureza e de nossas unidades de conservação.

No link você pode acessar o mapa por onde passamos e ver em detalhes onde fica cada localidade citada acima:

5 comentários em “Itatiaia: junho/21 – dois parques em um

  1. Rajul Bhargava says:

    Very interesting to read guys, beautiful pictures. Love the detailing and by-heart writing. makes it very exciting for us to come soon.

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