Parece injusto não chamar este de “o parque das flores”. Efetivamente, nunca vimos tantas flores sempre-vivas, e olha que não visitamos o parque na temporada em que estão mais presentes. Mas reduzir este parque às flores também é injusto, ele tem muito mais do que flores como característica. São tantas características, que talvez o parque ainda não tenha uma identidade definida. Somos meros observadores, emprestamos nosso olhar para que outros possam acessar os parques. Isso nos coloca também na posição de críticos. Entendemos alguns dos motivos pelos quais o parque ainda não tem um uso público definido, mas isso não nos tira a crítica de que poderia haver mais.

Não foi fácil encontrar o Sempre-Vivas. Quando falamos em “encontrar”, começamos pelo básico: saber onde o parque fica geograficamente. O parque é de 2002, mas ainda não aparece no mapa do Google. Sabíamos que a sede estava em Diamantina, mas as indicações do parque mesmo indicavam às vezes a Diamantina, outras a Buenópolis.

O parque nacional das Sempre-Vivas fica na Serra do Espinhaço com formações rochosas e campos de altitude, onde nascem as flores que dão origem ao nome do parque

Procuramos muito e não encontramos indicações boas sobre o que ver e por onde acessar o parque. Viajando de trailer, não podemos simplesmente sair por aí, sem saber que uma rua tem saída ou que teremos onde estacionar a nossa casa. Encontramos onde ficar em Diamantina e pensamos que uma vez lá tudo se abriria, faria sentido e finalmente entenderíamos onde o parque estava, o pessoal da cidade comentaria. Nos enganamos… Conversando com o pessoal da cidade, inclusive da área turística, poucos sequer haviam ouvido falar no parque. As dificuldades de acesso, o uso público incipiente e os parques estaduais do Biri-Biri, ao lado de Diamantina, e do Rio Preto, que é modelo em gestão turística hoje, roubam a cena e colocam o Sempre-Vivas em segundo plano, ou o tiram do plano por completo.

O wikiloc indica algumas trilhas, inclusive a travessia Curimatai – Inhai, como roteiros turísticos. No entanto, os caminhos, questão de resgate ou mesmo de pernoite não são claros. Isso tudo sem falar que nunca havíamos falado em Curimatai e Inhai, não entendíamos bem a relação com Diamantina e Buenópolis. Coisas que já sabemos que aprendemos somente quando chegamos mais perto do lugar.

Como explorar parques é nosso trabalho, nossa rede de contatos nos ajudou a encontrar o principal guia do parque, o Felipe Ribeiro (@serrasertao), que cresceu na região, estagiou no ICMBio e nos guiou em um circuito maravilhoso, e a chefe do parque, a Paula, do ICMBio, que nos recebeu e com quem conversamos horas sobre as belezas e desafios do parque.

Se a pesquisa do Google desmotiva qualquer um a visitar, dando a impressão de que o parque praticamente não existe, as pessoas com quem falamos sobre o parque são extremamente abertas em nos contar histórias e dar dicas de onde ir. No entanto, mesmo sabendo onde ir, o acesso ao parque é remoto e por estradas de muito (muito!) difícil acesso até para um 4×4.

Desafios não faltaram, mas ficamos felizes em ter conhecido muito desse parque!

Este não foi o parque em que conseguimos uma das melhores coberturas de visitação, conhecemos pouco dos mais de 124 mil hectares da sua área. No entanto, saímos com a impressão de que conhecemos praticamente tudo o que era possível, com exceção da travessia Curimatai – Inhai.

Queríamos indicar este parque para que todos possam visitar. É maravilhoso e vamos contar abaixo o que pode ser visto nele. Mas o acesso é tão difícil e as prioridades do parque estão ainda tão voltadas ao combate ao fogo e à questão de regularização fundiária, que fica difícil indicar para visitação neste momento. A menos que você tenha uma semana disponível para visitar o parque e se atenha a essa ideia (o que vale muito a pena), provavelmente seu foco será desviado para a cidade histórica de Diamantina ou para as belezas naturais do Biri-Biri ou Rio Preto, com acesso mais fácil.

Foi o parque no qual entendemos e vimos mais de perto os desafios da gestão

Conversando com a Paula, tomamos conhecimento das questões do dia a dia, desde contratar até colocar os brigadistas em campo, passando pela preparação de roupas e acessórios para o trabalho prévio ou de combate ao fogo. Tudo isso considerando que estamos em plena pandemia, que o treinamento não pode ser realizado como antes e que as equipes precisam fazer turnos e, ainda mais agora não se cruzar, para evitar contaminação no grupo todo se um contrair Covid, o que deixaria o parque sem brigadistas por algum tempo.

O que fazer e saber antes de ir ao Sempre-Vivas

  • O parque não tem portarias nem indicações de acesso; logo, tampouco há cobrança de ingresso
  • Os principais acessos turísticos ao parque (não oficiais) estão em Curimataí, Inhaí (distrito de Diamantina), Macacos (distrito de Diamantina) e Senador Mourão
  • Os acessos são por estradas de terra de difícil acesso mesmo para veículos 4×4; um trecho de 60km pode chegar a levar 3 horas para percorrer de carro
  • O território do parque é acessado pelos residentes / proprietários das terras do parque, por coletores de flores Sempre-Vivas, por garimpeiros (cristais) e caçadores (mocó) e pescadores; importante saber onde você está indo, as três últimas atividades são realizadas de forma ilegal
  • poucos guias que conhecem e visitam os locais com maior potencial turístico
  • No parque não há restaurantes, lanchonetes

Sempre-Vivas são flores que, se colhidas e secas de uma maneira apropriada, mantêm-se por anos

Desde que chegamos ao Cerrado, temos nos deparado com as tais sempre-vivas. No Cipó vimos diversos campos de sempre-vivas e achávamos que neste parque encontraríamos maior abundância das mesmas. Mais um engano: as sempre-vivas que conhecíamos chamam-se chuveirinho ou casadinha (se você juntar uma com outra, elas não se separam nunca). Sim, essas são sempre-vivas, mas não as que deram o nome ao parque, que são as pé-de-ouro, ameaçadas de extinção. Tampouco sabíamos como elas eram usadas e porque estão ameaçadas de extinção, até ver um arranjo como muitos que já vimos em presentes e buquês, mas que, apesar de resistentes ao tempo, perdem-se entre outros objetos em casa e, com isso, deixam de ser sempre-vivas. A ameaça de extinção vem da forma como são coletadas. Se coletadas sem arrancar a raiz, no ano seguinte rebrotam, do contrário não. Como o valor para quem coleta é muito baixo e é necessário coletar uma a uma, muitas vezes são arrancadas do solo antes do momento de reprodução, interrompendo o ciclo.

Nosso primeiro roteiro no parque foi o circuito do Inhacica, que parte do Jequitinhonha. Completamente ignorantes sobre o parque, achávamos que encontraríamos campos de flores e ponto. O Felipe nos guiou nesse circuito após contarmos sobre nossas preferências e ao dizer que na travessia veríamos tudo à distância, enquanto neste circuito estaríamos dentro de formações únicas. Acertou em cheio.

O início da caminhada não foi muito animador. Rodamos mais de 100km em carro desde Diamantina, dos quais 10km através de uma “floresta plantada”de eucaliptos. Pegamos as mochilas e caminhamos por propriedades onde há gado e, logo, carrapatos. Cruzamos o rio Jequitinhonha de início e um lamaceiro daqueles que deixa o pé preto. Ao chegar ao vale do Inhacica, tudo muda. Como o Felipe disse, “cruzamos um portal“. Paisagens belíssimas de montanhas, campos e rio, aves de todos os tipos, barulho do vento nas árvores e campos, campos de flores alternados por árvores do cerrado. Um cenário de filme, difícil acreditar onde estávamos.

Esse cenário torna-se cada vez mais bonito à medida que o dia avança e as cores dos campos tornam-se douradas. Acampamos ao lado da cachoeira do Inhacica, em uma praia de areia branca de fazer inveja a qualquer praia de água salgada. No dia seguinte, como se não bastasse de beleza, ainda fomos até a cachoeira do fundão. Está escondida em um pequeno canion, não pode ser vista de fora. A água corre por paredes de pedra cobertas de musgos que filtram a água, que já vinha limpa da nascente.

Vimos e aprendemos o que são veredas, os caminhos da água. Neste caso, é onde ficam os buritizais, cujas grossas folhas farfalham com intensidade, dá vontade de gravar para ficar ouvindo e meditar ao som das mesmas. Mas não é a mesma coisa ouvir e estar lá sentindo a vibração do lugar.

Fomos explorar a parte alta do parque sozinhos, colhendo informações meio esparsas, muitas vezes contraditórias. Saímos de Diamantina cedo com a intenção de acampar no parque. Chegamos a montar acampamento, mas nos sentimos inseguros em ficar acampados em um local tão remoto quando vimos um foco de incêndio. Era segunda feira, dia em que a brigada de incêndio não estava no parque.

Nossa intenção era subir o morro do Landim, onde os brigadistas vão diariamente para avistar eventuais focos de incêndio, e depois ir até a serra do Galho, onde acamparíamos. Primeiro, ao subir o Landim, fomos pela face errada e acabamos subindo um pico ao lado, mais baixo. Tudo bem, o caminho foi bonito e a vista também compensaram. Mas, por ter sido mais curto que o esperado, partimos sentido norte buscando o rio Jequitaí, onde queríamos acampar. Não encontramos o rio, voltamos até meio do caminho e achamos uma vista linda da serra do Galho para montar acampamento. Meia hora depois de montar tudo, desmontamos e descemos 3 horas de carro até o trailer de volta, não íamos arriscar uma mudança no vento e ficar no meio do fogo ao longo da noite.

Nenhum arrependimento, não fomos onde esperávamos, mas vimos lugares lindos e aprendemos muito sobre o parque

Com essas visitas a partir de Diamantina, vimos que para conhecer mais o parque precisaríamos ir até Curimataí, de onde poderíamos visitar a cachoeira de Santa Rita e o curral de pedras. Curimataí fica a uma hora de carro de Buenópolis por estrada de terra. Por isso, preferimos não ir de trailer e ficar em Buenópolis, evitando poeira e colocar o trailer em uma estrada potencialmente esburacada (o trailer está preparado, mas leva muito mais tempo e temos receio de que alguma peça, ao longo do tempo, se solte, o que já ocorreu, mas até hoje contornamos).

Curimataí é uma vila com 500 pessoas, cortada por um rêgo. O rêgo é um desvio do rio, parecido com as banquetas que vimos em Raposos, que leva água da cachoeira de cima às casas. Todos se conhecem e muitos vieram nos convidar para uma prosa, ver sua horta. Delícia de distrito, o Winicius foi o nosso guia na Santa Rita, ele cresceu na região e é casado com uma bióloga, que é guia na região.

A Santa Rita é uma cachoeira superlativa

Após percorrer uma hora de carro, a trilha é bastante fácil, com exceção do paredão no final da trilha. Muitas pessoas de Curimataí nunca foram à cachoeira por causa desse trecho. Você chega à Santa Rita pela parte de cima e de lá já tem a visão da grandiosidade da cachoeira. De baixo, além da vista, o poço é convidativo para banho.

Ainda em Curimataí, visitamos o curral de pedras, que tem valor histórico, dado que era lá onde o gado usado para transportar comida para Diamantina, era contado e os impostos eram recolhidos. O mais interessante foi visitar a cachoeira de cima da cidade de Curimataí, já nos limites do parque, mas que mostra o respeito que essa comunidade tem da água. Eles sabem o que poucos sabem: qual a fonte do recurso mais precioso e da importância de conservar seu próprio quintal para evitar perder essa fonte no futuro.

No link você pode acessar o mapa por onde passamos e ver em detalhes onde fica cada localidade citada acima:

2 comentários em “Sempre-Vivas: julho/21 – nem o Google conhece

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