Entre São Paulo e Rio de Janeiro; entre a altitude do Pico do Chapéu e o mar de Trindade; entre os campos de altitude e a floresta de mata atlântica; no caminho criado pelos indígenas, usado por piratas, pavimentado por escravos e usado para transportar ouro da colônia; entre a beleza das cachoeiras e o uso intensivo da terra; entre mata primária e mata extremamente mexida, de onde foi retirada madeira para fundir ferro e depois foram plantados pinus e eucaliptos, alguns que permanecem até hoje; um lugar que tem importância pela conservação em si, mas que também é considerado como “escudo” biológico para as usinas nucleares de Angra; representa resistência à usina hidrelétrica que havia se pensado construir ali. Enfim, são tantos “entres”, tantos “no meio do caminho”, que foi o que nos marcou neste parque nacional, o único que fica (parcialmente) no estado de São Paulo.

Chegar a este parque é fácil, encontrar o que visitar nele também. Mas sempre de forma desintegrada, é uma soma de atrativos e lugares que parecem não se conversar, se integrar e mostrar o motivo de ser uma unidade de conservação.

Não conseguimos visitar tudo o que esperávamos e não tivemos como prever tantos imprevistos, desde um escorregão na trilha até o mau tempo para chegar até o Tira Chapéu, a queda de barreiras no caminho para a Pedra da Macela ou a ventania no camping que fez com que quiséssemos sair antes e não correr o perigo de sofrer com a queda de um tronco na nossa cabeça. Mesmo não tendo visto e feito tudo o que queríamos, agora entendemos o que é o parque e acreditamos que podemos agregar informações para futuros visitantes.

O parque tem quatro principais “núcleos”

  • Trindade: é o principal ponto visitado do parque, o que lhe confere a 4a posição entre os parques nacionais mais visitados do Brasil; o parque fica fora da área das lojas, restaurantes e pousadas, contando com duas belas praias, numa delas uma piscina natural e uma cachoeira onde há uma pedra por onde é possível ser “engolido”
  • Cunha: é um ponto bastante visitado, um caminho íngreme por onde passam muitas pessoas na madrugada para apreciar o nascer do sol da baía de Angra e Parati; há uma estrada que desce a serra até Parati, que corta o parque
  • São José do Barreiro: apesar de menos visitada, está no centro do parque, é de lá que se chega ao ponto culminante (Tira Chapéu) e por onde se acessa a travessia de Mambucaba, que leva às maiores cachoeiras em que é possível se banhar
  • Bananal: a entrada do parque é afastada da cidade que já foi uma das mais ricas do Brasil na época do café, levando até a cachoeira do Mimoso e para a trilha da Pedra do Frade

Algumas agências operam a trilha Trans-Bocaina, que liga Bananal a Cunha pela crista das montanhas, são cerca de 6 dias. Não tivemos tempo hábil para nos preparar e fazer essa travessia, mas ficamos com vontade. Se quiser dicas, procure pela Bocaina Experience, que no instagram está como @bocainaxp

A acesso para o parque nacional em Trindade fica ao lado da vila e pode ser feito somente a pé

Logo após cruzar a entrada há uma série de indicações para as praias e para a pedra que engole. É possível percorrer as praias a pé, chegando até a piscina natural. Também é possível chegar até o outro extremo da praia em barcos específicos para esse fim.

O Brasil carece de unidades de conservação à beira mar, como é o caso da Serra da Bocaina, mas somente uma pequena área permite um contato mais tranquilo da faixa florestal com a areia e o mar, raridade no nosso país.

A Piscina Natural cercadas pelas enormes pedras que parecem ter acabado de rolar e ter criado essa maravilha tem peixes, mas também algum incômodo pelo barulho dos barcos que chegam com turistas. Há controle de fluxo, mas ainda assim não permitem uma experiência plena na natureza.

A Pedra que Engole causa admiração: Uma bela cachoeira pertinho da praia onde há uma pedra por onde é possível entrar embaixo da queda d’água, percorrer uma “câmara” embaixo de uma pedra e sair do outro lado. Dá uma sensação estranha pela primeira vez, mas não parece haver perigo. Mas a região também causa tristeza: há muito lixo espalhado tanto na praia quanto na cachoeira. É uma pena que pessoas continuem a deixar pontas de cigarros, peças de roupas, chinelos com alças quebradas, papel higiênico nas trilhas por onde outros passarão.

Subindo a serra, cortando o parque, chega-se a Cunha

A cidade de Cunha é conhecida como um centro de ceramistas, conta com boa infraestrutura para hospedagem e passeio. A Pedra da Macela é conhecida pela beleza de sua vista, principalmente no nascer do sol, e pela íngreme trilha que leva até ela. A trilha é asfaltada, mas esburacada. Para permitir melhor acessibilidade, na época que visitamos estava fechada nos dias de semana para obras.

Não tivemos desta vez, assim como há quatro anos, o privilégio de ver o nascer do sol de lá. Chegamos por volta das 3h30 da manhã para iniciar a trilha e nos deparamos com o aviso de que estava fechada. Por sorte havia uma trilha alternativa, da Janela do Mar. É mais curta, praticamente plana, passa por uma bela pequena cachoeira das bromélias e dá vista para o nascer do sol. Não é a mesma vista que da Pedra da Macela, mas é mais acessível e pode ser uma alternativa enquanto a trilha da Macela estiver em obras.

(No final de março de 2022 ocorreu uma forte chuva na região e o acesso à Pedra da Macela, mesmo aos finais de semana, foi interrompido; antes de ir, verifique com o ICMBio pnsb.rj@icmbio.gov.br a situação)

De Cunha a São José do Barreiro há uma série de caminhos, dos mais belos aos mais rápidos

Por conta do nosso trailer não foi possível ir “por dentro”, a estrada de terra não estava com as melhores condições para se carregar uma casa. Mas no caminho de Cunha a Barreiro por Areias está uma das nascentes do Rio Paraíba do Sul, que é parcialmente transposto ao Rio Guandú, abastecendo a cidade do Rio de Janeiro. Essa é uma das grandes importâncias deste parque para o homem.

Chegando a Barreiro parece que voltamos no tempo: as casas antigas, a pracinha, o restaurante que serve farofa de içás, as formigas “tanajura”. A entrada do parque não fica na cidade em si, mas uns 20km serra acima, parte asfaltada, parte não. Pelo que vimos, não é necessário um veículo 4×4 para acessar o parque.

Nessa entrada começa a travessia de Mambucaba, também conhecida por alguns como travessia do Ouro. Como ela foi criada pelos indígenas que habitavam a região antes da colonização, achamos mais justo e correto usar o nome que eles deram. Mambucaba é sinônimo de “furo”, “abertura”, “passagem”. Os indígenas que habitavam essa região, os Tamoio ou Tupinambá, foram dos mais resistentes aos colonizadores, que somente quebraram a resistência com roupas e presentes que continham doenças, que dizimaram os povos ancestrais.

O caminho de Mambucaba tem hoje 50km e é geralmente percorrido em três dias, numa descida de serra com muita interferência humana ao lado. A parte mais protegida do parque está em pontos onde as estradas não chegam.

No primeiro dia percorrem-se 25km, na parte menos protegida de todo o caminho. Ainda assim, é nesse dia que é possível conhecer as belas cachoeiras de Santo Isidro, Mochileiros e Posses. Para aqueles que não quiserem fazer a travessia, é possível fazer um passeio de um dia para uma ou todas essas cachoeiras, já vale a viagem.

A pernoite nesse dia é um dos pontos altos da travessia. Ficar na casa da Dona Palmira foi muito especial. Logo que chegamos, aproveitando o benefício de sermos os únicos visitantes naquele dia, fomos convidados a sentar à beira do fogão para comer pinhões recém cozidos, ainda quentinhos. Essa travessia chega a receber 300 pessoas em finais de semana prolongados, os visitantes dividem-se entre os diversos pontos de hospedagem, acampando ou ficando nas casas.

A Dona Palmira nasceu na região e vive sua vida toda lá, é uma testemunha da criação do parque e das mudanças ocorridas desde então, a maior parte de seus vizinhos já se mudou para a cidade. Ela segue em sua casa sem energia elétrica ou sinal de celular, ao pé do fogão à lenha e informada pelo radinho a pilha. Vive com seu filho Naldo, que trabalha na prefeitura dando manutenção nos caminhos e estradas. Ela aguarda o dia em que será indenizada para sair de sua casa.

Mas não sabemos o que acontecerá nesse momento. Outras casas foram abandonadas e posteriormente apossadas por terceiros, há um risco de que isso aconteça ali. Nos perguntamos qual o balanço que deveríamos ter, considerando que há uma realidade de antigos moradores que não pode ser perpetuada, mas que tampouco pode ser ignorada.

O segundo dia é mais curto e já nos leva por uma trilha mais fechada, dentro da mata. Após percorrer menos de 12km chegamos até a ponte pênsil que indica a cachoeira dos Veados. Ainda há mais uma pinguela para cruzar, levando até a parte baixa da cachoeira. À primeira vista enxergamos uma enorme cachoeira, mas dado o volume de água após as chuvas, não foi possível entrar. Somente depois de nos acostumarmos com o primeiro impacto positivo, olhamos mais para cima e vimos que havia uma queda d’água muito maior. Foi então que decidimos explorar um pouco mais e chegar até a parte de cima, com sorte haver uma calmaria nas águas para podermos nos banhar.

A trilha até a parte alta é bem demarcada, mas sofreu muito com quedas de árvores e pedras recentemente, quando ocorreram fortes chuvas na região. Apesar de não ter sido possível ou seguro chegar até o poço, estava muito escorregadio, sentimos como se tivéssemos entrado na água. A força da queda era tamanha que conseguimos nos banhar somente com o vapor da água que voltava com o vento.

O caminho do terceiro dia começa mais bonito e dá vista para a Cachoeira dos Veados ao fundo. Com uma parte mais preservada do calçamento, é nessa parte que começamos a refletir o custo humano de ter construído essa estrada. Posteriormente soubemos que há marcações que indicam e homenageiam os escravos que morreram em sua construção.

Bananal é um destino mais afastado

Parece um outro mundo, o Bananal também é uma cidade histórica como São José do Barreiro, mas já com uma mescla maior com o mundo moderno. Restam os prédios antigos, a estação de trens trazida da Bélgica e as ruas de paralelepípedo. Para chegar até o parque nacional é necessário subir uma belíssima serra, rodeada de uma bela mata e belíssimas cachoeiras onde dá vontade de chegar.

Por conta dos altos preços praticados, optamos por não visitar a cachoeira do Mimoso, de onde há uma vista de “borda infinita” de uma cachoeira até o mar. Fomos até a cachoeira do Bracuí, que fica fora do parque, tangenciando sua área. A vista é muito bela, há local para banho e a trilha é um espetáculo.

Ficaram faltando algumas visitas e destinos

Queríamos ter visitado a Pedra do Frade, mas tomamos conhecimento que as trilhas ainda estavam muito molhadas e que era necessário pernoite por lá, com guia. O ideal é ir a partir de maio para ir com segurança e poder pernoitar e apreciar o nascer do sol do topo.

O Tira Chapéu tem uma importância maior que sua beleza. Havíamos visitado em outra viagem à região, a trilha não tem sombra ou pontos de água. Queríamos ter voltado, mas dado o mau tempo e o risco de raios, optamos por não arriscar.

A Pedra da Macela também acabou ficando de fora nesta visita. Era nossa intenção, tentamos duas vezes, mas por conta de obras e mau tempo não conseguimos. Nesses três locais, fica a dica de ir ao parque na época mais seca, que começa em maio.

No link você pode acessar o mapa por onde passamos e ver em detalhes onde fica cada localidade citada acima:

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