Nada escondido nas montanhas está o Parque Nacional da Serra dos Órgãos. Desde os anos 1500 os navegadores já avistavam a beleza dessas montanhas, que foram nomeadas dessa forma não por parecerem órgãos humanos, mas órgãos de igreja.

As montanhas são imponentes e exibidas, são provenientes de formações de rocha que ressurgiram do interior da Terra há centenas de milhões de anos. Por isso tão bem apreciadas por escaladores.

Não somente por isso, mas também, que em 2021 o Senado concedeu a Teresópolis o título de capital do montanhismo no Brasil

As icônicas montanhas e picos deste parque podem ser vista de vários ângulos, inclusive da costa e da cidade do Rio de Janeiro

Capital do Montanhismo no Brasil!

As montanhas podem ser vistas em dias claros desde o Rio de Janeiro e parecem compor com as belezas naturais do entorno, que começam na capital do Estado fluminense, passam pela Serra das Araras, pela Serra dos Órgãos e se completam com as montanhas do Parque Estadual dos Três Picos.

Para onde você olha, parece que está num cartão postal. A vista não somente não cansa, como em diferentes pontos os ângulos criam diferentes vistas. De alguns pontos o Dedo de Deus está lá em cima, imponente; de outros ele está escondido ou lá embaixo, junto do Escalavrado.

De alguns pontos não chega-se a avistar a Pedra do Sino, cujo nome não tem nada a ver com o instrumento, mas veio de “cimo”, já que é o ponto culminante do parque. Em algum momento o nome alterou-se e ficou Sino; de muitos pontos, apesar de ser o ponto culminante, não é possível avistá-lo, ele se esconde atrás de outra bela montanha.

Este parque não chega a ser dos maiores em termos de área, mas certamente é um dos maiores em termos de trilhas. Há registro de mais de 300km de trilhas dentro do parque, cuja área foi praticamente duplicada na última década.

Este é um parque muito usado não somente por turistas, mas também por moradores, principalmente de Teresópolis, que recorrem diariamente à natureza desse parque para praticar exercícios e estar em contato com o ar puro e demais benefícios que o ambiente natural nos proporciona.

O mais difícil deste parque foi, sem dúvida, ir embora. É fato que demos muita sorte com o tempo, afinal escolhemos o início da temporada mais seca para aproveitar as montanhas, mas também aprendemos muito com a história deste que é o 3o mais antigo parque nacional brasileiro.

Há três acessos principais ao parque, através de suas três sedes, mas há também entradas específicas, principalmente pela BR-116, para escalada e ascensão a montanhas específicas como o Escalavrado, o Garrafão e o Dedo de Deus.

Sede Petrópolis: poços e cachoeiras

Na Sede Petrópolis está o ponto de partida para a travessia, da qual falaremos mais adiante. Dela também sai uma curta trilha, de aproximadamente 3km e com baixo nível de dificuldade, que margeia o rio e permite que o mesmo seja aproveitado para banho nos quatro poços mapeados e nas duas cachoeiras no final da trilha. A água que nasce no parque corre sobre rochas, o que lhe garante menos sedimentos e uma transparência de beleza sem igual.

Depois dessas últimas duas a trilha segue morro acima, em aproximadamente 4km chega-se aos campos de altitude, de onde a vista amplia-se até o litoral, sendo possível avistar Niterói, mas também os efeitos de um grande incêndio que ocorreu há 2 anos na região e acabou por devastar grande parte da mata nativa arbustiva.

Caminhando pelas pedras e sob as nuvens chega-se até os Castelos do Açu, que também abordaremos quando falarmos da travessia.

Sede Guapimirim: museu e poço verde

Na sede Guapimirim é possível banhar-se nas águas do Rio Soberbo que também nasce no parque, além de visitar o Museu von Martius.

Esta era uma antiga fazenda de quina, de onde é extraído o quinino, usado para tratamento de malária. Por ter sido uma área de plantio, hoje pode-se visitar tanto uma floresta primária (margem esquerda do rio) quanto uma floresta secundária (margem direita do rio). Ambas belas e com diferentes histórias, somente vendo para entender qual pode ser a diferença em termos de umidade, cheiros, sons e densidade.

A floresta secundária esbanja vitalidade e densidade, pois desde 1939, com a criação do parque, está em recuperação. A recuperação que já leva mais de 80 anos foi feita de forma natural, sem a intervenção do homem. Isso de certa forma nos dá um conforto que a natureza se recupera.

No entanto, essa recuperação encontrou nos últimos 80 anos elementos pouco prováveis de serem encontrados nos próximos 80: floresta primária no entorno com flora nativa, ausência de espécies invasoras, a plantação de quina naquela época não usava agrotóxicos, logo os microorganismos não se perderam por completo, abundância de animais fazendo a dispersão de sementes, menos intervenção humana e uso de recursos.

Seria ótimo repetir essa recuperação para as áreas hoje degradadas, mas isso somente será possível, nesse período de tempo pelo menos, com ajuda do homem para compensar, ainda que parcialmente, a ausência dos demais fatores naturais. Vale lembrar que esse tipo de recuperação ocorreu na mata atlântica, que tem um comportamento e capacidade de recuperação maiores que biomas como cerrado, caatinga e amazônico.

Não é à toa que nesse lugar está o museu de von Martius, um alemão médico apaixonado por estudos da natureza (não havia a profissão biólogo naquela época) que veio ao Brasil acompanhar a D. Leopoldina, apaixonada por flora e que veio casar-se com D. Pedro I. Junto de von Spix, von Martius viajou por mais de 3 anos no nosso país e 14 mil km, catalogando mais de 22 mil espécies de plantas, quase a metade do total conhecido até hoje, publicado no livro Flora Brasiliensis, hoje disponível em formato digital (http://florabrasiliensis.cria.org.br/).

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46995817

Essa sede, além de abrigar a história, também abriga os poços do Rio Soberbo, começando pelo poço verde, cujo nome já diz tudo, até o poço da capela. Lugares perfeitos para passar o dia inteiro, fazer um picnic, ler um livro e admirar a beleza da mata atlântica.

Sede Teresópolis: centro de visitantes e trilhas cênicas

Na sede de Teresópolis há uma maquete da serra, onde é possível avistar o caminho da travessia e a amplitude do parque, que divide nascentes do Rio Paraíba do Sul e da Baia de Guanabara. No centro de visitantes também estão os equipamentos utilizados por Mozart Catão, um alpinista de Teresópolis que conquistou diversas vias no Brasil e no exterior, mas infelizmente faleceu ao tentar chegar ao Aconcágua por uma via mais difícil.

Ali também há uma sucessão de trilhas, a maior parte de baixa dificuldade, que percorrem a mata atlântica até pontos de belas vistas, como Cartão Postal, Mozart Catão e 360.

Também dessa sede chega-se à Pedra do Sino, mas falaremos dela mais adiante quando falarmos sobre a travessia.

Travessia Petrópolis – Teresópolis

Essa é uma das travessias mais clássicas do Brasil, ficou fechada por quase dois anos e esperamos ansiosamente para fazê-la. A travessia tem 30km e geralmente opta-se por ir de Petrópolis para Teresópolis, não somente por ser mais fácil, mas pelo fato de que a vista é mais bonita. Ao ir nesse sentido você fica de cara com as montanhas ícone do parque e também com os três picos, mais ao fundo.

Quando fomos, os abrigos estavam fechados para pernoite. Desde que o contrato com a antiga concessionária venceu e ainda não foi renovado, processo longo por conta da Covid, os abrigos não foram totalmente reabertos. No entanto, é possível fazer a travessia pernoitando em barracas ao lado dos abrigos, usando a estrutura de banheiro (chuveiro frio, privada e pia de banheiro/lavar louça).

Além de linda, essa travessia ainda tem mais um ponto positivo: há muitos pontos de água. Além de serem pontos excelentes para parada e descenso, reduzem o peso carregado e permitem que se tome água pura, fresca da fonte em vários momentos.

No primeiro dia caminha-se pouco mais de 9km morro acima, desde a sede de Petrópolis até os Castelos do Açu. A trilha é bem marcada e em zig-zag. Também muito didática, pois começa nas florestas densas e altas, terminando nos campos de altitude, passando por diversas fitofisionomias.

Na subida demos uma “escapada” para conhecer as duas cachoeiras da parte baixa de Petrópolis, das quais já falamos. Lá em cima, os campos dão uma ampla visão dos morros até o litoral. Os Castelos do Açu são uma formação de uma pedra que foi se quebrando com o tempo, formando um labirinto dentro dela. A atração principal fica com os astros: do pôr do Sol ao nascer do mesmo no outro dia, passando pela observação das estrelas e da Lua, é tudo um espetáculo. Não se engane que estamos no Rio de Janeiro, lá em cima faz muito frio e em caso de neblina pode ficar muito difícil encontrar a trilha, pouco demarcada na parte alta.

No segundo dia demos mais uma escapada, desta vez para ver os Portais de Hércules. Realmente um lugar singular, uma vista ampla e profunda das montanhas do Parque Nacional da Serra dos Órgãos e do Parque Estadual dos Três Picos. É indescritível em termos de grandeza e beleza, algumas fotos podem dar ideia do que é estar lá.

Esse dia acaba sendo o mais desafiador. São novamente cerca de 9km de trilha, mas com 5 grandes subidas e descidas, todas com algum ponto de água. Nesse dia também há três pontos mais técnicos, um deles o “elevador”, que é uma escada de vigas de metal na rocha por onde sobe-se grande parte de uma montanha, outro o “mergulho”, uma descida mais íngreme por onde o auxílio de corda ajuda a dar uma segurança, e o “cavalinho”, uma pedra mais alta que exige uma passada mais larga e também pode ser feita com auxílio de corda.

O acompanhamento de guia não é obrigatório para a travessia, tampouco mostrar equipamento. Mas acreditamos que em uma primeira ida pelo menos é muito compensador. Além de todo o conhecimento e histórias que o guia te conta e que fazem a diferença em sua experiência, há pontos onde uma simples neblina pode fazer com que você se perca. Além disso, os trechos mais técnicos podem ser desafiadores para quem faz a trilha por primeira vez, atém do fato que fatores climáticos podem causar escorregões e acidentes facilmente evitáveis se você estiver com alguém que conheça bem a região e tenha equipamentos de segurança.

A noite no abrigo da Pedra do Sino foi igualmente bonita, não desperdiçamos o pôr nem o nascer do sol nesse dia. Infelizmente não nos preparamos para ficar uma noite a mais por ali e explorar mais do entorno da Pedra do Sino, há muito o que ver e admirar de lá, valia uma noite adicional.

A descida no terceiro dia é a parte mais fácil e igualmente bela. A descida é por uma bela floresta onde ouve-se o som de aves e encontram-se alguns macacos-prego.

Uma “escapada” da descida é para o Mirante do Inferno, onde chega-se muito próximo à Agulha do Diabo. Nós havíamos ido outro dia e apreciado a vista das montanhas e do tapete de nuvens lá embaixo.

Escalaminhada: Escalavrado

Para não deixar a nossa experiência incompleta, queríamos escalar alguma pedra. Mas as escaladas aqui não são para amadores, então optamos por uma escalaminhada. Essa é uma modalidade não oficial de quando você faz uma trilha, mas usa muito as mãos como apoio, em alguns lugares inclusive cordas e cadeirinha.

A trilha é curta, são 1.600m, mas bem íngreme e sobre uma grande pedra. O início fica na BR-116, literalmente o ponto baixo da trilha, mas logo passamos por algumas florestas e descampados. Em um deles, dado que nesse dia as rajadas de vento estavam bem fortes, pedimos ajuda ao nosso guia para usar uma corda como apoio. Não é necessário fisicamente, mas psicologicamente ajuda a ir e, principalmente, voltar.

Nos deparamos com um grupo que ia logo à frente e que não conseguiu seguir por fator psicológico. Por isso, recomendamos que mesmo que não seja obrigatório, opte-se por ir junto de um guia que conheça o local, agregue com informações ricas sobre a região e também dê segurança para casos de medo ou mesmo mudanças bruscas de clima, o que ocorre com frequência na montanha.

No link você pode acessar o mapa por onde passamos e ver em detalhes onde fica cada localidade citada acima:

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