“A maior floresta urbana reflorestada do mundo”, “o maior monolito à beira mar do mundo”, “o parque nacional com mais visitantes do Brasil”. Estamos tão acostumados a definir algo no superlativo que muitas vezes esquecemos que o maior valor está na singularidade.

O Parque Nacional da Tijuca não têm somente “o mais isso” ou “o maior aquilo”, ele é único. Assim como cada um dos 74 parques nacionais brasileiros. Seria fácil definir este parque pela comparação, vamos vamos nos ater ao que o torna incomparável.

Sair de sua casa e poder percorrer 180km de trilhas pela Transcarioca, dos quais 43 num parque nacional que fica dentro de uma cidade é um privilégio que os cariocas e os turistas que visitam o Rio de Janeiro podem ter.

Uma enorme área reflorestada nos anos 1860, quando a cidade já vivia uma crise hídrica, ainda com 400 mil habitantes, é um caso de sucesso com o qual ainda precisamos aprender e que precisamos valorizar, pois ele foi realizado com sucesso.

Atrativos, como amplas vistas, picos, cachoeiras, paredes naturais de escalada, impressionam não somente pela diversidade, mas pela quantidade e acessibilidade. Há para todos os gostos e possibilidades: trilheiros, ciclistas, motoristas e cadeirantes.

Já havíamos ido ao Rio de Janeiro outras vezes, mas nunca com um olhar para o parque nacional, e de agora em diante não deixaremos de ir ao parque quando formos ao Rio. Já sabemos o caminho, e ele é curto.

Este parque foi criado 100 anos após esta área começar a ser conservada. A conservação começou antes mesmo de o primeiro parque nacional ter sido criado nos EUA. Em 1861 D. Pedro II contratou dois engenheiros para reflorestar a área onde hoje fica o parque e na época era plantado café.

Após o aumento populacional iniciado com a vinda da família real portuguesa, o Rio de Janeiro sofreu sucessivas crises hídricas e verificou-se que o desmatamento acelerado era uma das causas.

O reflorestamento levou 13 anos, foi feito com o trabalho de 6 escravos com o plantio de mais de 200 mil mudas. Há controvérsias sobre esses números, até porque depois vieram outros engenheiros que introduziram fauna exótica, como eucaliptos e jaqueiras, presentes até hoje na área do parque.

Fato que como a fauna do Rio de Janeiro já havia sido praticamente dizimada, não restava alternativa a não ser plantar manualmente, já que os jardineiros naturais, os animais, haviam sido extintos ou reduzidos ao extremo.

O resultado é visto até hoje e serve de exemplo. Não foi suficiente para o Rio de Janeiro de hoje, que requer ainda mais fonte de água, grande parte que nasce na Serra da Bocaina entre os estados de SP e RJ, mas suficiente para mostrar que é possível.

Vale lembrar que o foco de D. Pedro II foi louvável no sentido do reflorestamento, mas o fato de ter sido executado por escravos denota um lado nada louvável do então mandatário. Ficamos com um sabor agridoce dessa história toda.

Os atrativos do parque estão listados no guia do visitante e podem ser acessados também pela Transcarioca, mas um bom lugar para entender do parque é o Centro de Visitantes que fica em Paineiras, uma parada antes do Cristo no Corcovado.

Lá não somente a história deste parque é contada, mas a mata atlântica, onde está inserido, é explicada. Trata-se do bioma com maior biodiversidade do mundo, do qual restam menos de 7% de mata original. Há 12% dele de pé, dos quais quase metade fruto de reflorestamento, o que significa que 93% foi destruído e 5% recomposto, ainda que parcialmente.

O parque é chamado, inclusive em placas indicativas da cidade, de Floresta da Tijuca. Entendemos o apelo, mas acreditamos que ao não chamá-lo pelo nome correto (Parque Nacional) perde-se a oportunidade de contar aos moradores do Rio, turistas e visitantes do parque que este é um parque nacional. Com isso, as pessoas poderiam passar a se perguntar o que é um parque nacional, onde há outros, saberem que não é algo que existe somente nos EUA ou na África. Há um parque nacional dentro da cidade do Rio de Janeiro!

Outro motivo de potencial confusão no nome é que “Floresta” pode dar a impressão de que é algo que sempre esteve ali. Mas como esta é uma área reflorestada, o nome pode ajudar a entender os motivos para que isso tenha sido feito, valorizando os objetivos e os resultados. Isso pode criar mais educação ambiental, que é um papel ao qual os parques nacionais se propõem.

Vamos ao que vimos por lá! Este parque é dividido em três setores que podem ser visitados: setor Floresta, setor Serra da Carioca e Setor Pedra Bonita/Pedra da Gávea.

O Setor Floresta é o que fica mais afastado, mas ainda com acesso muito fácil e bom. Ali há dois principais circuitos, que podem ser feitos de forma completa ou parcial.

O Circuito Histórico acompanha a estrada por onde passam os carros e passa por cascatas, fontes, ruínas, casas e capelas construídas quando este espaço era uma fazenda de café e posteriormente como parte do paisagismo.

O Circuito dos 10 picos passa pelo ponto culminante do parque, o Pico da Tijuca, mas também pelo Tijuca Mirim, Bico do Papagaio e Morro do Archer, entre outros. Cada um com um ponto de vista diferente, achamos que a vista do Tijuca Mirim é mais ampla que do Tijuca, onde a vegetação é mais alta e cobra um pouco a vista. Mas a subida ao Pico da Tijuca é feita por uma escada entalhada na pedra, escavada por escravos.

O Morro do Archer tem uma “janelinha”de vista, é uma bela homenagem a um dos principais realizadores deste refloretaemento. E o Bico de Papagaio tem uma vista mais para o Sul (Barra da Tijuca) e das Pedras da Gávea e Bonita. Não há pico certo, mais bonito, mais legal. Cada um com uma vista diferente e complementar, todos com trilhas muito bem sinalizadas.

O Setor Serra da Carioca é onde fica o Corcovado. A subida pode ser feita por trem ou van, com estacionamento no Cosme Velho. Mas há também a opção de subir a pé por um trecho de cerca de 4km da Transcarioca a partir do Parque Lage. Foi o que fizemos.

Aos poucos o barulho dos carros é abafado, mas o barulho do helicóptero que sobrevoa o Cristo fica mais evidente. O trecho do último km é em asfalto por onde passam as inúmeras vans indo e vindo com turistas, em alta velocidade, vale muito cuidado, ali não há calçada. A chegada ao Cristo não foi, a nosso ver, de longe o ponto alto da caminhada. Pouco espaço, muita gente. O que mais valeu a caminhada, além da trilha em si, foi o Centro de Visitantes em Paineiras que falamos acima.

Nesse mesmo setor fica o Parque Lage. Incorporado ao parque há cerca de 20 anos somente, ali funciona a Escola de Belas Artes que faz a gestão do palacete onde filas de turistas se aglomeram para tirar uma foto específica enquanto outros apreciam o restaurante.

No Parque Lage há um jardim fruto de reflorestamento e paisagismo realizado nos anos 1930, mas a grande recomendação é ir até o centro de visitantes (entrando, ao fundo do lado esquerdo), onde há muita informação sobre o Parque Nacional e o Parque Lage, mas também pessoal qualificado para dar informações, dicas e contar histórias dali.

Ainda no Setor Serra da Carioca está a Vista Chinesa e a Mesa do Imperador, locais perfeitos para fazer um picnic admirando a vista da cidade entre as árvores. E também diversas cachoeiras, das quais destacamos a dos Primatas, com acesso muito fácil e dois níveis de queda d’água a menos de 10 minutos de carro e mais 20-30 de trilha da Zona Sul.

Uma cachoeira para fazer inveja de qualquer paulista que viaja até muito longe para se refrescar na natureza. Parabéns aos cariocas!

Finalmente, no Setor Pedra Bonita/Pedra da Gávea, um pouco mais próximo ao mar, há não somente uma rampa de voo livre, mas também algumas trilhas. A trilha da Pedra Bonita é fácil, leva cerca de meia hora e dá uma maravilhosa amplitude para todos os lados inclusive o mar.

A trilha da Pedra da Gávea é fácil até a carrasqueira, onde é necessário se equipar para subir o paredão de 30 metros. Pode parecer fácil subir, mas há relatos de acidentes fatais nessa região. Caso não tenha conhecimento de escalada, não se arrisque, procure um guia/instrutor que domine as técnicas e tenha o equipamento necessário, procure por referências/indicações para não cair em roubadas. Afinal, o que está em risco é a sua vida.

Mais que nada, este parque nos surpreendeu muito positivamente. A vista da Pedra da Gávea não estava boa no dia em que subimos, então temos já um bom motivo para voltar!

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