Um Parque Nacional dentro de Floresta Nacional (pelo menos parcialmente: 76% de sobreposição)

“Mas vocês visitam somente parques nacionais ou outras Unidades de Conservação (UC)?” é uma das perguntas mais recorrentes. O Brasil tem hoje 2.659 UCs. No nosso ritmo, levaríamos 110 anos para visitar todas. Só federais são 1.004, 42 anos de viagem.

Mas há UCs que precisam ser visitadas para entender o todo, como a Floresta de Carajás. Senta que lá vem a história.

No início dos anos 1980 a Vale do Rio Doce assumiu sozinha o Projeto Grande Carajás, a maior reserva de minério de alto teor de ferro do mundo, além de reservas de manganês, cobre, níquel, ouro, bauxita e cassiterita. Isso tudo numa região e época em que ocorria a corrida do ouro na Serra Pelada, aqui (estamos falando de Parauapebas, no Pará) ao lado.

Naquela época, a Vale, que era estatal, passou a proteger todo o entorno da mina, de forma a impedir invasões. Este era o arco do desmatamento, que avançou já muito a oeste, o que não era Floresta Nacional foi praticamente tomado por pastagens de gado.

Quando a Vale do Rio Doce foi privatizada em 1997 foi proposta a criação de uma Floresta Nacional, afinal a Vale como empresa privada não podia ser responsável pela floresta, podia haver um conflito de interesses.

Em 1998 a Floresta Nacional foi criada, mas a visitação a ela não foi estruturada de imediato, o que criou uma falsa ideia de que tratava-se de uma reserva da “Vale”.

Aos poucos algumas trilhas foram abertas, como a Trilha da Lagoa da Mata, belíssima e riquíssima. Mas o turismo ficou restrito a visitar mirantes de minas com autorização da Vale.

Em 2017 foi criado o Parque Nacional dos Campos Ferruginosos, maior parte sobreposto à área da Floresta Nacional. Ué, mas já não era UC?

Sim, mas Floresta Nacional permite algumas atividades (aqui extrativismo e mineração) em locais previamente definidos, parque nacional não permite uso ou extração de recursos. Foi uma forma de delimitar ainda mais a área de atuação da Vale e proteger o que resta de canga.

A canga: isso é Amazônia?

Quando você pensa em Amazônia, o que vem à mente? Uma floresta densa, com árvores altas, quase impenetrável, com muita chuva e muito bicho à espreita para nos atacar, como cobras, onças, aranhas?

A parte dos bichos ameaçadores vale esclarecer de imediato: ameaçados são eles e não nós. Sobre a flora, sabíamos que íamos nos deparar com Amazônias diferentes do padrão que nós do centro-sul acreditamos ser o único existente: a floresta densa. Mas não sabíamos como e nem quando isso aconteceria.

Pois bem, aqui tem a canga: um campo rupestre ferruginoso, solo com minério de ferro, sem profundidade, onde as plantas se adaptaram e parecem com o cerrado, as folhas são lisas com uma camada de cêra para não perder umidade.

Há 36 espécies de plantas endêmicas na canga, como a flor de Carajás, que ocorre em apenas algumas áreas de canga aqui. A canga é uma recarga de corpos hídricos, chega a 700-800m de altitude e é origem dos rios voadores. Além disso, é uma área com muitas cavidades, habitadas por morcegos. Das 181 espécies catalogadas no Brasil, 76 vivem aqui.

Importante? Sim! Belo? Uau! Único? Demais

Mas… é aqui onde fica o minério de ferro com maior teor de ferro do mundo: mais de 60%, quando em outros locais 20% já é considerado bom suficiente para extração.

Lembrando que, no melhor dos casos, para cada tonelada de montanha retirada, 400kg são rejeitos. Nos menores teores, para cada parte de minério aproveitada, 4x essa quantidade é rejeitada, formando montanhas.

Bem na canga, não na floresta. Para desavisados, parece ser tudo bem: “tira a canga, afinal a floresta ficará de pé”.

Mas o que é floresta? É um conjunto de árvores de grande porte densa? Ou um conjunto de flora e fauna, independente de porte e densidade, onde nossa água é recarregada, onde vivem animais e flores únicos e onde o homem consegue também participar positivamente do ciclo?

Extrativismo e floresta de pé

Na Floresta Nacional, como falamos, podem ser usados e extraídos recursos, de forma ordenada. Da Floresta Nacional de Carajás é extraída a folha do jaborandi para tratamento de glaucoma. Isso quer dizer que quem trabalha aqui ajuda milhares ou milhões de pessoas a não ficar cega, tudo isso com a floresta de pé.

A @coexcarajas foi criada em 2011 como uma Cooperativa para coleta de folhas de jaborandi na Floresta Nacional. Antes o pessoal coletava arrancando e os arbustos deixavam de dar folhas nos anos seguintes.

Aos poucos foi feito um plano de manejo e a coleta passou a ser feita com tesoura de poda em plantas com determinada altura. Abaixo de 50cm ainda não chegaram à maturidade. Acima de 2m tornam-se matrizes para sementes e proliferação da espécie.

Os 39 coletores cooperados passam 15-30 dias na floresta direto, vivendo em abrigos, retirando as folhas. Quando o trabalho de poda é concluído, eles transportam sacos de 30 a 50kg, pelo menos 10km. Recentemente a Vale passou a dar um apoio aéreo para retirada de sacos por helicóptero.

Convém lembrar que a Vale, para explorar minério de ferro, precisa cumprir uma série de contrapartidas, como criar uma via de escoamento para os cooperados. A empresa optou por transportar de helicóptero ao invés de abrir os caminhos por terra.

Não bastasse a riqueza da região e a renda gerada, o jaborandi daqui tem o maior teor de pilocarpina do mundo. Cada folhinha tem 2 a 3x mais pilocarpina que encontrado em outros locais. Se você conhece alguém que usa, lembre-se de agradecer a cada uma das pessoas dessa cadeia maravilhosa.

Se você não conhece alguém que use pilocarpina, lembre-se também que essas pessoas também trabalham por você: são protetores da floresta, logo das nossas nascentes, biodiversidade, vidas humanas e não humanas.

Águas Claras, Caverna da Janela Verde, Mirante da Harpia e Lagoas

Já falamos de “quando você pensa em Amazônia, o que imagina?”. Agora, quando você pensa no Pará, o que vem à mente? Em algum momento uma cachoeira e lagoas formadas por água de chuva? Cavernas?

O parque nacional é relativamente recente e os atrativos turísticos estão em ordenamento, nem todos podem ser visitados. Fomos convidados a fazer uma visita técnica e dar um feedback ao pessoal do ICMBio sobre o que achamos que pode ser desenvolvido e o que já está mais pronto. A boa notícia é que está tudo num caminho muito bom e rápido.

Águas Claras é um conjunto de cachoeiras daqueles em que dá vontade de passar o dia todo. Um poço em meio às árvores, uma série de pedras dispostas perfeita e naturalmente para deitar e ler um livro, dormir, conversar, fazer um picnic, admirar a queda d’água.

A Caverna da Janela Verde é bem curta, mas bem interessante e bonita, repleta de musgos, ouve-se o som dos morcegos (é preciso fazer silêncio para que eles fiquem tranquilos) e uma bela vista da saída, a muito bem nomeada “janela verde”.

O Mirante da Harpia é uma enorme pedra que se destaca em meio à floresta e até onde a vista e os sons da floresta chegam. Melhor no início ou final do dia para poder sentar e admirar com o sol menos forte, observar a imensidão e não se esquecer de observar os detalhes, como os cactus que surgem logo ali nas pedras.

E os lagos e lagoas? Formados pela água da chuva com solo rochoso, muito sensíveis e ao mesmo tempo resistentes. Quem é de água aproveita para se refrescar, quem é de seco procura uma sombrinha para admirar.

Bocaina: cachoeiras e mirantes

Já falamos que o parque tem uma área de 760% sobreposta à Floresta Nacional. Os 24% não sobrepostos ficam numa região chamada Bocaina, fica “para lá do rio Parauapebas”, que separa as duas partes. Hoje os atrativos estão fechados à visitação, fomos convidados a fazer uma visita técnica para contar ao ICMBio nossa percepção. Agradecemos à equipe a organização e parceria!

Uma das áreas de mais fácil acesso e onde acreditamos que o turismo deva ocorrer de forma mais intensa, pela proximidade e facilidade de acesso. O que tem lá? A cachoeira do Poço, cercada por patiubas (uma palmeira que “anda” – as suas raízes aéreas crescem para o lado que levará o tronco para onde houver mais sol, chegam a “mover-se” até 1m por ano!).

A cachoeira do Goiano, que poderia ser rebatizada de cachoeira do Açaí, pela presença dessa palmeira que gosta de viver ao lado do curso d’água. Na parte de cima um paredão com três quedas, uma perfeição de lugar para fazer um lanche e passar o dia.

A cachoeira do Camarão, com seu poço enorme. Apesar de o acesso ser proibido até que seja ordenado, o lixo deixado indica que muitos têm ido lá, sem consciência ecológica e pelos outros, o que certamente será melhorado com ordenamento.

E a cachoeira do Bombeiro, que poderia também ser renomeada valorizando os grandes defensores do parque, os brigadistas. Fica na beira do parque, passa por uma trilha íngreme, mas vale a pena visitar, uma queda d’água para renovar as energias e fechar a visita com chaves de ouro.

Reflexões sobre mineração

Poucos parques nos trouxeram um volume de reflexões como este. A maior mina de ferro a céu aberto do mundo fica ali no meio da Floresta Nacional. Numa área que não está sobreposta à do parque, mas é necessário passar por ela para chegar ao parque. “Necessário” do ponto de vista logístico, o caminho é por lá, e sentimental/educacional, é vendo a mina que as reflexões e discussões ocorrem.

Numa conta rápida não auditada, Carajás tem ferro para que sejam construídos dois carros para cada ser humano vivo hoje (16 bilhões de carros com 500kg de ferro cada um). O teor de ferro é tanto (mais que 60%), que os rejeitos têm um teor de ferro suficiente para ser uma mineração em si (20%), mas hoje são rejeitados.

Fácil culpar a Vale, dizer o que pensamos sobre o dano etc. Mas qual a nossa parcela desses buracos? Se todos fôssemos iguais no mundo, cada um de nós teria responsabilidade por 0,0000000125% do buraco. Parece pouco, não é? Se todos os 8 bilhões de seres humanos disserem isso, o buraco só aumentará.

Como não somos todos iguais no mundo, quem tem carro, anda de avião, tem um telefone celular, entre outros, tem uma responsabilidade bem maior. Quanto menos usarmos, quanto mais reutilizarmos, menor será o buraco. Responsáveis somos nós, a Vale está lá nos servindo.

O tamanho da destruição da mineração assusta, e muito. É impactante, para dizer o mínimo. Convém lembrar que a mineração é uma das cicatrizes que estamos deixando ao “comer o mundo”, como diz Ailton Krenak.

A agricultura e a pecuária podem parecer menos nocivas, mas ocupam áreas bem maiores e causam danos não somente em termos de desmatamento como em termos de uso de veneno, que contamina a água daqueles que vivem ao redor e longe das nascentes.

Não é à toa que em algumas cidades do interior estão sendo abertos mais hospitais para tratamento do câncer: https://midianinja.org/ricardotargino/a-chernobyl-do-agro/

Toda vez que falamos da responsabilidade do nosso consumo e investimento, muitas pessoas nos perguntam: como? A resposta completa ainda não temos e pode ser que nunca tenhamos.

Mas se abrir para ver, para discutir e rever o seu consumo e onde investimos nosso dinheiro (para aqueles privilegiados que têm ou ganham mais do que gastam), é uma reflexão importante para começar e não terminar nunca.

No link você pode acessar o mapa por onde passamos e ver em detalhes onde fica cada localidade citada acima:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *