Sabe quando você chegar num lugar onde você olha, para todos os lados, e não vê o fim? Sabe quando você chega num lugar que te remete a alguma memória e você não sabe de onde ela vem? Não é bem um déjà-vu pois não havíamos visto exatamente aquilo.

Um rio relativamente estreito, sinuoso, com lindas paredes verdes, cercado de árvores altíssimas, cheio de aves para lá e para cá? Imagina agora fazer isso numa canoinha, lentamente, com a água respingando nas corredeiras?

Chegar numa cachoeira belíssima para se refrescar, sem mais ninguém por lá. E fazer isso todos os dias, cada dia para um atrativo diferente, mas sempre com poucas pessoas? Agora, imagina subir num mirante e ver toda essa potência da Amazônia em um só lugar?

Parece cena de um documentário, trecho de um livro, lembrança de um sonho? De onde vêm essas impressões que recebemos sem saber de onde e nos influenciam em alguma forma?

Foi assim, é assim: sem fim. Como estar num sonho.

O único parque nacional do Acre

Chegamos à pontinha do Brasil, no extremo oeste. Mais abaixo falaremos sobre o Acre, sua história, a biodiversidade, sobre quem vive lá (pois é, há comunidades lá e não somente indígenas!). E, é claro, sobre o show de belezas: florestas, rios, serras, cachoeiras, aves endêmicas.

Só tem um jeito de chegar lá: de barco. As canoas com motor “rabeta”, próprios para rios rasos, saem de Mâncio Lima (a cidade mais a oeste do Brasil), a 30 minutos do aeroporto de Cruzeiro do Sul. Também dá para ir de carro ou ônibus de Rio Branco a Mâncio Lima, são cerca de 800km. A boa notícia é que a estrada é asfaltada, a má é que é bem esburacada.

Embarcando numa canoa em Mâncio Lima são cerca de 7h até o local onde ficam três pousadas de moradores locais, na região chamada Serra do Môa. A melhor forma de ir é contratando com uma das três pousadas que fornecem o transporte, a estadia, as refeições, os passeios e os guias.

Muitas pessoas acabam indo pelo final de semana. Não somente pelo fato que chegar até Mâncio LIma leva um tempo, mas recomendamos mais. Há muita cachoeira, muita trilha, muita beleza para ver e rever.

A pressa não vai ajudar e se você optar por poucos dias provavelmente sairá de lá com o sentimento de que ainda não conheceu tudo e que precisa voltar logo. Voltar é sempre bom, e é bom sinal quando vamos embora de um lugar já querendo voltar. Mas o bom é aproveitar a ida e já conhecer bem!

Como assim uma serra no meio da Amazônia?

Não é só aqui que há uma serra ou montanha na Amazônia, inclusive muitas delas são parques nacionais: já visitamos Serra do Pardo/PA, Campos Ferruginosos/PA, Montanhas do Tumucumaque/AP, Pico da Neblina/AM, Monte Roraima/RR e Viruá/RR, e falta visitar Serra da Cutia/RO, Pacaás Novos/RO e Serra da Mocidade/RR.

E por que isso é tão importante e especial? A Amazônia muito plana, não é à toa que os rios são largos, têm uma grande amplitude entre seca e cheia, ou formam muitas curvas, buscando caminho onde há pouca inclinação.

Se a Amazônia já tem sua importância pela biodiversidade e quase sempre numa altitude baixa, imagina quando você sobre 100, 500, mil ou 3 mil metros? Vai tudo mudando: a temperatura, a umidade, as plantas e os animais.

A Serra do Divisor nem é tão alta assim, fica entre 200 e 600 metros. Mas essa diferença, além de poder ser feita a pé em minutos e ter uma cachoeira bem no pé da serra para se refrescar, faz muita diferença na paisagem, na fauna e flora.

Não é à toa que um dos principais atrativos do parque é o mirante: de um lado você vê a imensidão do tapete de floresta, do outro o mar de morros que vai até o Peru. Pois é, o Peru está logo ali!

Divisor do quê? Do Peru!

Aprendemos e repetimos que “o Brasil vai do Oiapoque ao Chuí”. Ainda que essa afirmação fosse correta – e não está, pois o ponto mais ao norte do país está no Monte Caburaí, no Parna do Monte Roraima, e não no Cabo Orange, que é o extremo norte do litoral brasileiro, também um Parna – não é completa.

Da ponta norte à ponta sul o Brasil tem 4,4 mil km; da ponta oeste à ponta leste são 4,3 mil km. Quase igual. Por que será que desconsideramos tanto o eixo longe da costa?

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_extremos_do_Brasil

Qual será o extremo oeste? Parece muito longe, meio inatingível, talvez desinteressante por ser tudo floresta e por acharmos que ninguém vai lá. Acharmos… porque a realidade é bem diferente.

A Serra do Môa é o extremo oeste e fica num parque nacional maravilhoso e muito bem estruturado, Serra do Divisor. Essa serra fica mais a oeste que Cusco no Peru, Santiago do Chile e na mesma longitude que Nova Iorque! Você sabia que o Brasil ia tão longe assim?

Isso tudo no Acre, que não foi simplesmente comprado pelo Brasil da Bolívia. Não tem um acreano que não venha nos contar a história de como o Acre passou a fazer parte do Brasil. Pudera, é de se orgulhar mesmo.

Habitado inicialmente por povos indígenas, no século XIX a região teve uma forte migração nordestina pelo ciclo da borracha. Aqui era parte da Bolívia mas a produção escoava pelo Brasil. Cansados de serem cobrados em impostos e nada receberem de volta, seringueiros e imigrantes lideraram a Revolução Acreana.

Foi uma guerra que o Brasil ganhou. Para consolidar o território, fizemos um pagamento. Afinal, deixar a conta em aberto pode ser confuso e perigoso (vide disputas mal resolvidas como Esequibo que perduram até hoje entre Venezuela e Guiana).

Sim, o Acre existe, é enorme e lindo. Voltaremos ao parque, mas não podíamos deixar de dar nosso apoio e contar o que aprendemos com o único povo que lutou para ser brasileiro.

A choca do Acre

Segundo a Mariana Napolitano, do WWF, a Serra do Divisor é “(…) um dos locais de maior biodiversidade da Amazônia (…) dada sua proximidade com o ecossistema andino, numa região de transição das terras baixas da Amazônia e as montanhas dos Andes”. Como ela bem diz: “um dos”, até porque para comprovar ser o lugar com “a maior biodiversidade” da Amazônia seria necessário ter ainda mais pesquisas.

https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2020/02/24/serra-do-divisor-por-que-parque-com-biodiversidade-unica-corre-risco-no-ac.htm

E nesse lugar onde o desmatamento está contido e a biodiversidade protegida, há quem ainda proponha ou defenda a passagem de uma estrada. Uma estrada que não levará a lugar algum, pois do outro lado há também um parque nacional no Peru.

Saiba mais em https://oeco.org.br/colunas/projeto-de-rodovia-conectando-brasil-ao-peru-ameaca-parque-nacional-da-serra-do-divisor/

E se a gente contar que só nesta serra aqui existe uma ave que se chama choca do Acre? Descrita somente em 2004, sabe-se muito pouco sobre ela ainda.

À primeira vista, um passarinho pretinho que canta bonitinho. Mas na hora em que você pensa que só este lugar no mundo reuniu condições tão singulares para que essa espécie evoluísse até o ponto que é hoje, você percebe quão especial é o lugar e a ave. Não é só um passarinho.

Ela vive entre 300-400 metros de altitude, no caminho ao mirante. De onde avistamos ela até o cume onde está o mirante não há mais de 100 metros de altitude. Se com o aquecimento global as espécies que vivem em montanhas tendem a subir cada vez mais em busca de temperaturas mais amenas, então a choca do Acre infelizmente pode não ter muitas gerações adiante.

Quando saímos na expedição, não tínhamos conhecimento da quantidade de pessoas que viajam o mundo para ver, fotografar ou gravar a vocalização de aves. Enquanto estivemos no Parna vimos uma grande movimentação de um time multidisciplinar para treinar os guias locais para avistamento de aves. O turismo dessa modalidade vem aumentando e vai só aumentar.

E isso sem considerar as mudanças climáticas e a corrida por avistar ou registrar espécies que poderão perder seu habitat nos próximos anos. Esperamos que isso não ocorra, mas sendo realistas, se você quer ver a choca do Acre é melhor se apressar.

“Letícia e Dennis, quase me convenceram a ir, contem-me mais sobre os atrativos e estrutura”

Bora para os atrativos:

 – percorrer o rio Môa de barco para observa a fauna, a mata, as paredes verdes

 – ir até uma das cachoeiras que ficam na beira do rio e não requerem caminhada: Pirapora 1 e Buraco da Central (não é bem uma cachoeira pois é resultado de uma sondagem de petróleo, mas é a água mais quente e o lugar mais visitado)

 – ir até uma das cachoeiras com trilhas curtas (5 a 10 minutos): Amor, Ar Condicionado, Pirapora 2

 – subir ao mirante para ver o nascer ou pôr do sol, ou só a choca do Acre no caminho mesmo

 – fazer uma trilha de longo curso até a cachoeira Formosa, pernoitar na floresta em rede (recomendamos duas noites!)

 – “passarinhar”: já falamos bastante sobre a choca do Acre, mas há muitas aves ali para observar

 – observar macaco: além do prego, aqui o aranha é todo preto, tem o macaco barrigudo e o uacari de cara vermelha (não demos sorte)

 – observar as estrelas (na escala bortle, este é o melhor céu para observar astros)

Não suficiente? E se a gente disser mais uma vez que já três pousadas operadas por famílias que vivem ali há séculos e que sabem todas as histórias e que são essas as pessoas que vão te guiar por lá?

E quando ir? Sempre! Os rios não chegam a encher ou esvaziar muito, é sempre acessível. Evite feriados, quando é mais cheio.

Os bastidores do parque

Depois de tantos parques nacionais, já nos acostumamos um pouco a conhecer os parques quando os turistas não estão. Demos muita sorte na época que fomos, estava acontecendo muita coisa. Poucos turistas, mas muita gente preparando o parque, tem muita novidade vindo.

Chegamos no dia em que estava rolando um evento para promover os produtos locais, provamos doces de todos os tipos que logo serão vendidos na base em Mâncio Lima para quem não puder ou não quiser ir até o parque comprar.

Daí participamos com o ICMBio no reconhecimento de uma trilha onde foi feita a sondagem do petróleo lá nos anos 20 por uma empresa alemã – alguns dizem que nos anos 40 pela Petrobrás. Não há consenso, mas as máquinas têm datas dos anos 20 e símbolos nazistas.

Uma possível nova trilha no parque unindo a beleza natural à história. Ah, não foi encontrado petróleo ali. Caso tivesse sido encontrado, em 1989 não teria sido criado o parque nacional e hoje não estaríamos aqui.

Depois veio um grupo multifuncional para planejar o treinamento dos guias locais em observação de aves. Com o aumento na demanda por essa atividade, os guias locais estão sendo priorizados e receberão um treinamento completo para levar os turistas.

Ainda teve o dia de reconhecimento da trilha onde vai rolar o monitoramento da biodiversidade em maio. Uma trilha reta com 5km que será percorrida a 1km/h para identificar espécies de mamíferos e aves que voam no subbosque, além de borboletas, que são bioindicadoras.

Nos últimos dias ainda veio mais um grupo do ICMBio que vai recuperar pontes da trilha mais longa e tornar o acampamento selvagem mais confortável lá perto da cachoeira Formosa. Somos suspeitos sobre dormir na floresta, vocês já sabem que achamos que não há nada que transforme mais do que isso.

A gente adora visitar, conhecer, tomar banho de cachoeira. Mas também saber o que está rolando, principalmente quando são notícias boas. Se já está bom desse jeito, imagina com tudo isso que está sendo feito?

Como assim, mora alguém lá longe e no meio da floresta?

Quando chegamos à Amazônia, há quase um ano, achávamos que em lugares extremos e longe de estradas não viveria ninguém. Talvez indígenas, mas quem mais se atreveria? Viveria do quê? Desconhecíamos as migrações para o ciclo da borracha. Só no final da segunda guerra foram mais de 55 mil “soldados da borracha”, iludidos que voltariam depois para suas casas.

Alguns, mesmo podendo, não quiseram voltar. Afinal haviam saído de secas históricas para uma terra úmida e fértil, cheia de peixe e de caça. Mas a maioria não teve escolha, a Amazônia passou a ter além dos indígenas os beiradeiros.

Durante a ditadura militar colocaram nas nossas cabeças que não havia ninguém na Amazônia, que era preciso “ocupar para não entregar”. Será que quem definiu isso foi até lá antes e não encontrou o povo que lutou para ser brasileiro?

Visitamos até agora 13 parques nacionais na Amazônia e cada vez mais nos surpreendemos com o fato de que ao longo dos rios da Amazônia mora muita gente. Pessoas que foram lá por vontade própria ou por incentivos do governo.

Algumas que já foram “reassentadas” mais de uma vez, por mudanças nos planos e políticas públicas. Pessoas que sabem viver em harmonia com a floresta. E que são tão gentis a ponto de nos receber em suas casas, algumas que hoje são pousadas.

Cada vez mais vemos que o turismo feito de forma ordenada com a participação das comunidades locais permite que os conhecedores e defensores da floresta fiquem ali. Há de tudo um pouco na Amazônia, inclusive rotas de tráfico vindo de outros países e escoando pelo Brasil.

Mas tem muita gente séria e preparada para nos encantar com sua receptividade, seja através das histórias, da comida, pelo seu ouvido aguçado e respeito às plantas.

Se você espera uma Amazônia sem ninguém, a gente já avisa: isso não existe. E se você quer saber como tudo isso foi povoado e a relação entre a seringa dos 1800 e o turismo dos 2020, ambos protegendo a floresta, este é um convite que fazemos para conhecer a nossa história pelas palavras de quem a faz.

A Serra do Divisor é um ótimo lugar para isso, além de aproveitar tudo o que a natureza prepara com tanto capricho. Para quem acha que Amazônia e conforto não combinam, aqui há mais uma prova que sim.

No link você pode acessar o mapa por onde passamos e ver em detalhes onde fica cada localidade citada acima:

Um comentário em “Serra do Divisor: o parque a perder de vista

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