Aqui fica o ponto mais alto do Brasil!

A Amazônia é uma enorme planície cheia de rios que descem lentamente serpenteando a selva. No noroeste do Brasil, perto das fronteiras com a Colômbia e a Venezuela, em uma região conhecida como “Cabeça de Cachorro”, pelo seu formato no mapa, ficam os dois picos mais altos do país.

Aqui é tudo diferente, uma Amazônia que começa a 100 metros de altitude (isso que estamos a mais de 2 mil km da costa!) e termina a quase 3 mil. Há campos de altitude, pode fazer muito frio à noite, habitam os Yanomám, além de outras 23 etnias do que se chama Alto Rio Negro.

O Pico da Neblina fica 2.995,30 metros acima do nível do mar. Mas como será a “cara” dele?

Por ser uma região remota, muitas vezes as fotos atribuídas a ele, inclusive oficiais, são de outras montanhas do Parque Nacional do Pico da Neblina e não do Pico da Neblina em si. Uma região onde o acesso não é possível de carro, somente de barco ou de avião.

Antes de contar do parque e do pico, aqui vão algumas imagens para nos familiarizarmos. O Pico da Neblina em si é bem difícil de registrar, tanto pelo ângulo quando pela densa floresta que fica abaixo e pela neblina que quase sempre o encobre:

Foto 1: Yaripo, conhecido também como Pico da Neblina: o ponto mais alto do Brasil; visto desde o acampamento Areal

Foto 2: Kurarana, conhecido também como Pico 31 de Março: o segundo ponto mais alto do Brasil; não é visitado turisticamente; vista desde o Yaripo

Foto 3: Opora, conhecido também como Serra do Tatu ou dos Padres: na área do Parque Nacional; não é visitado turisticamente; vista desde a aldeia Maturacá

Foto 4: Curicuriari, conhecida também como Bela Adormecida da Amazônia: fora da área do Parque Nacional, vista a partir de São Gabriel da Cachoeira

Abaixo um artigo do Instituto Sócio Ambiental sobre os nomes dos picos e potencial turístico:

https://site-antigo.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/yanomami-discutem-ecoturismo-ao-pico-da-neblina-e-apresentam-a-recem-criada-associacao-das-mulheres

Yanomami ou Yanomám?

O parque foi criado em 1979 e a homologação da terra indígena em 1992, depois da nova constituição, há quase 74% de sobreposição entre elas.

Até o final do século XIX os Yanomami mantinham contato apenas com grupos indígenas vizinhos. Nos anos 1950 o contato com os brancos tornou-se permanente. É um povo que mantém sua língua e tradições. Mas o processo de contato com os brancos é muito rápido e parte de sua cultura vai se perdendo (segundo eles mesmos).

Ao longo da vida aprendemos pouco sobre os indígenas, formamos uma ideia de que eles são todos parecidos. Há poucos indígenas nas grandes cidades para nos educar direta ou indiretamente, precisamos buscar informações e nos educar sobre eles.

O ISA é uma referência, é quem consegue hoje trazer as melhores informações em uma linguagem direta e simples. Eles indicam que há hoje no Brasil 266 povos indígenas e mais de 160 línguas e dialetos falados.

Temos procurado ler diretamente o que os indígenas escrevem. Mas sua comunicação é oral, é raro encontrar informações nos formatos que estamos acostumados a buscar (livros, sites, documentários).

No caso dos Yanomami, procuramos ler os livros do David Kopenawa, de Roraima. Chegamos até a Aldeia Maturacá no Pico da Neblina, achando que os Yanomami eram um povo só. Não é bem assim.

Foram categorizados 8 povos Yanomami, um deles são os Yanomám que moram aqui. Eles são parentes dos Yanonami de RR, mas têm suas diferenças. Achar que lendo David Kopenawa saberemos sobre eles é como ler o livro de um francês sobre seus costumes e chegar à Itália falando francês e esperando uma cultura igual. São europeus, latinos, têm ótimos pães, queijos e vinhos. Mas são diferentes (de forma alguma estamos quantificando as diferenças, apenas ilustrando).

O nome dos Yanomám pode variar ao longo da vida. Eles se referem uns aos outros pelo nome, mas é desrespeitoso chamar alguém pelo nome. Os homens são todos chamados de xori (cunhado), as mulheres de naka (irmã), os brancos são nape.

As florestas são guardadas pelos xapiri, espíritos nos quais os seus ancestrais se transformaram. Os pajés que vieram nos dar a bênção pela expedição, têm maior acesso aos xapiri.

Os Yanomám levam os sonhos muito a sério, sonhos ruins são levados aos pajés, sonhos bons compartilhados com os parentes. Este povo é caçador coletor e domina o conhecimento de cerca de 20 cogumelos comestíveis da floresta. O Yaripo é uma montanha sagrada e seu nome significa “Montanha do Vento”.

Mas quer saber mais sobre os Yanomám? Só tem um jeito! Ir até lá conversar com eles! E um jeito é indo conhecer o Pico da Neblina, ou o Yaripo, a Serra dos Ventos.

O Pico da Neblina foi avistado inicialmente nos anos 1950 e somente nos anos 1960 foi feita uma expedição para medi-lo. Até aquele momento acreditava-se que o ponto mais alto do Brasil era o Pico da Bandeira no Parque Nacional do Caparaó. O nome foi dado por motivos óbvios, já que raro é ele não estar coberto de neblina.

Ao lado do Pico da Neblina fica o Pico 31 de Março, é o 2o ponto mais alto do Brasil. A visitação é proibida e, assim como no caso do Yaripo, o nome Yanomami “Kurarana” foi sobreposto por um nome branco.

Dos 27 Yanomami que nos acompanharam, somente 5 subiram ao pico conosco. As lideranças Yanomami definiram quem subiria, somente xoris podem subir, as naka não.

Lá em cima a vegetação tem um misto de palmeiras da família do açaí e bromélias, entre outras árvores de médio porte. Chama a atenção a beleza e a diversidade das plantas menores com flores de todas as cores, algumas delas carnívoras.

Bem diferente daquilo que esperamos na Amazônia, até porque não existe uma única

Tudo começa em São Gabriel da Cachoeira, uma cidade no extremo noroeste do Brasil, rodeada por 23 etnias indígenas do alto rio Negro. De lá partimos de carro por 3 horas, cruzando a linha do Equador.

Mais 6 horas de voadeira num belo (mas quente) caminho pelo rio Cauabari até a aldeia de Maturacá. Lá pernoitamos em rede com mosquiteiro (nossa nova casa) e partimos cedinho com os Yanomami. Foram 3 horas de voadeira até o início da trilha.

A partir daí é tudo a pé. Foram 5 dias até o acampamento base, um dia de ataque ao cume e 3 dias de descida, caminhamos 74km.

Achávamos que o duro seria a subida. Afinal, esta não é só a montanha mais alta do Brasil, mas uma das maiores subidas de montanha do mundo, foram mais de 5 mil metros de elevação no total.

A temperatura? Lá embaixo: muito calor, por sorte pegamos pouca chuva e lama, mas muito quente. Lá em cima chegou a fazer zero grau uma noite. Bem vinda “rede com mosquiteiro, isolante térmico e saco de dormir”.

O banho? Em cada um rio diferente. Uns mais largos e rasos, outros com cachoeiras. Uns sofrendo mais com a seca, outros que nos fazem esquecer se estamos na Amazônia, Mata Atlântica ou um terceiro bioma que talvez só exista aqui.

O banheiro? O mato, ué. Em alguns lugares havia locais mais preparados e privados, acreditamos inclusive que um dos próximos passos seja exigir que todos levem seu kit dejetos e tragam tudo de volta.

Começar no rio, entrar na floresta, ver a floresta mudar pela altitude, chegar ao topo com uma vegetação completamente inesperada para o bioma é fantástico. Mais fantástico que isso é ouvir e avistar, lá do topo, grupos de araras vermelhas que vinham curiosas ver quem mais estava na casa delas.

O garimpo de ouro

No início de 2023 foi denunciado o garimpo em terras Yanonami. O garimpo e seus impactos noticiados dizem respeito a grupos de Yanonami de RR. O projeto Yaripo foi criado como uma alternativa de renda aos indígenas que acabam participando indiretamente em atividades relacionadas, como cozinheiras ou carregadores.

Não esperávamos, por vários motivos, ver garimpo ali. Uma Terra Indígena sobreposta a um Parque Nacional, numa área de fronteira com presença próxima do Exército.

Os próprios indígenas ficaram chocados com o avanço recente. O projeto foi discutido por quase 10 anos. Quando foi implementado, veio a pandemia. Levou algum tempo para reestabelecer até que o governo anterior decidiu impedir o turismo. Este ano as licenças voltaram, mas os custos são muito altos e a procura tem sido inferior ao esperado.

10-20 turistas ao ano são insuficientes para levar renda atrativa o suficiente comparada ao garimpo. Precisamos de mais turistas, de forma ordenada. Para isso, os preços precisam ser revistos. Mas é uma operação cara, envolve muita gente e muita logística. Como equilibrar?

E quem está de longe e não quer/não pode ir até lá também pode contribuir. A questão do garimpo extrapola qualquer alçada de ecoturismo, do ICMBio e do ISA. Segundo o MapBiomas, em 2022 a área de garimpo expandiu 35 mil ha, equivalente ao município de BH; A área garimpada em Territórios Indígenas aumentou 265% entre 2017 e 2022.

Há um mercado consumidor e fazemos parte dele. Como e quanto queremos fazer parte de algo que polui rios, destrói biodiversidade e oprime culturas? Precisamos de ornamentos em ouro? Qual o seu real benefício e onde fica o custo?

A melhor notícia está lá

Se tem algo que vamos lembrar é o sorriso do povo Yanomám ao nos receber e em cada troca de olhar. Vamos torcer e atuar para que este parque tenha mais visitantes de forma ordenada, não somente neste mas em outros atrativos. Que torne-se referência na gestão compartilhada de um parque nacional e uma terra indígena.

No link você pode acessar o mapa por onde passamos e ver em detalhes onde fica cada localidade citada acima:

6 comentários em “Parque Nacional do Pico da Neblina: o parque do Yaripo

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