Você já ouviu falar no Xingu?

É provável que saiba que Xingu é um rio na Amazônia e que ali há um Parque Indígena. Mas onde fica o Xingu? Onde ele nasce, onde ele desemboca? O que ele tem a ver com Belo Monte, com beiradeiros? E por que agora que estamos falando do Parque Nacional da Serra do Pardo estamos falando no Xingu?

Xingu significa água boa e limpa

É o nome de um rio que nasce no Mato Grosso, no bioma Cerrado, e segue pelo Pará até desaguar no Amazonas, no bioma Amazônia.

Em 1961 foi criado o Parque Nacional Indígena do Xingu com objetivo de proteger diversas etnias que estavam, já naquela época, sofrendo pressão pelas terras e corriam o risco de desaparecer. O termo “nacional” foi usado no nome pois ainda não havia uma Lei própria para as Unidades de Conservação, o que foi acontecer em 2000 com o SNUC.

Mas já em 1978 o nome do Parque foi alterado para Parque Indígena do Xingu, pois tem um propósito diferente do propósito de Parques Nacionais. Para saber mais sobre essa história, clique neste link.

O Parque Indígena do Xingu não é aqui, fica no mesmo rio e tem um diferente propósito; este é o único Parque Nacional no rio Xingu

O Xingu ficou mundialmente famoso, entre outros motivos, pelo cacique Raoni Metuktire, hoje o Parque Indígena do Xingu é um Território Indígena sem um propósito direto para o turismo. Em 2005 fomos presenteados com um Parque Nacional que fica ao longo do Rio Xingu, entre as cidades de São Félix do Xingu e Altamira, no Pará.

O motivo da urgência em sua criação foi o risco iminente de devastação no que se chama Arco do Desmatamento

Uma linha “de frente” que vai devastando de sul a norte, de leste a oeste, para abertura de pastagens de criação de gado.

Estradas são abertas para escoar grãos do Centro-Sul até portos no Pará, com isso abre-se espaço para um desmatamento seletivo, das árvores mais valiosas e raras.

Uma vez que essa madeira foi retirada, geralmente de forma ilegal, é feita uma “limpeza” na terra, cortando tudo o que resta, passando uma grande corrente que arranca as árvores das raízes e queimando a matéria orgânica.

Nesse momento em que a floresta morre, deixando de ser habitat da flora e fauna, além de pessoas que podiam ali morar e tirar seu sustento, o valor da terra aumenta e o grileiro vende a um fazendeiro, geralmente pecuarista.

Anualmente a área é queimada para renovar a pastagem, geralmente na época mais quente e seca, gerando grandes incêndios e impactos como a fumaça que se viu em 2023.

Nesta área não foi diferente, a floresta que vimos ficou a ponto de sumir para sempre. Até o início dos anos 2000 viviam algumas famílias na comunidade São Sebastião. Pessoas que vivam de atividades de extrativismo e pesca, principalmente, com pequenas roças para subsistência.

Essas pessoas chegaram a este local no início dos anos 1900, quando houve uma demanda forte e crescente pela borracha da seringueira. Justamente quem manteve a floresta de pé durante décadas foi retirado à força e à bala por grileiros que se diziam donos daquelas terras e que começaram a desmatá-las.

Antes que fosse tarde foi feita uma força tarefa, foram criadas dezenas de Unidades de Conservação no chamado Arco do Desmatamento para frear esse avanço. O Parque Nacional da Serra do Pardo é uma delas, o parque que fica na beira do Xingu.

Por que destacar que fica “na beira”. Pois bem, pouco conhecemos de povos como os ribeirinhos, que se auto denominam beiradeiros. Eles são, assim como indígenas e quilombolas, considerados povos floresta, pois viveram (e muitos ainda vivem) em harmonia com a natureza.

Via de regra não deve haver moradores em parques nacionais, mas situações como esta em que as comunidades já lá estavam são avaliados caso a caso. São feitos acordos de conduta e as comunidades, como é o caso aqui, ajudam na gestão dos parques, fazem parte deles.

E como fazemos para visitar este parque? Pois bem, o parque ainda não tem um uso público para turistas estruturado. Fomos convidados pela equipe do ICMBio para fazer o monitoramento da biodiversidade do parque e avaliar alternativas para desenvolver a visitação turística na região.

Apesar disso, no Rio Xingu ocorrem práticas como da chamada “pesca esportiva”, o que causa alguns conflitos entre indígenas (margem direita), beiradeiros (margem esquerda) e guias + pescadores.

O Rio Xingu perdeu muito estoque de peixe com a construção da Usina Belo Monte, concluída na última década, todos perderam e há menos peixe para quem vive lá.

A visita ao parque é feita pelo Rio Xingu, saindo de Altamira em voadeiras, os barcos que são um dos principais meios de transporte na Amazônia. Subimos o Rio Xingu na época seca, o que requer um conhecimento enorme dos pilotos.

O fundo é pedregoso e qualquer descuido pode representar um acidente. Quem conhece o rio sabe onde estão os obstáculos.

Levamos um dia e meio em voadeira para subir 386km, parando no meio do caminho na Reserva Extrativista Rio Xingu para descansar e dormir

Chegando à sede do parque, onde ficava, antes de ter sido expulsa pelo grileiro, a comunidade de São Sebastião e onde fica uma casa com estrutura de fazenda, onde o grileiro havia se estabelecido para começar a derrubar a floresta e criar gado, inclusive com uma pista de pouso particular!

Da casa há uma vista maravilhosa do nascer do sol atrás da floresta da Terra Indígena que fica do outro lado do rio.

Para nós, essa era a imagem referência da Amazônia, foi lindo e muito especial poder estar ali com uma equipe tão competente e dedicada, além de todos os animais e plantas com quem tivemos o privilégio de conviver por duas semanas.

Fomos voluntários, como mencionamos acima, no Programa de Monitoramento de Biodiversidade de Mastoaves, que é uma espécie de censo de mamíferos e aves de médio e grande porte.

Este é um dos protocolos realizados anualmente em diversas Unidades de Conservação, com uma metodologia comum que garante comparabilidade entre UCs e ao longo do tempo.

Este ano foi retomado o Programa Monitora no Parna Serra do Pardo

https://www.gov.br/icmbio/pt-br/assuntos/noticias/ultimas-noticias/parna-da-serra-do-pardo-retoma-monitoramento-da-fauna-1

A equipe do ICMBio abriu há alguns anos (e deu manutenção este ano) três trilhas em linha reta, cada uma com 5km que devem ser percorridas dez vezes em dias diferentes por pelo menos duas pessoas andando 1km/h em completo silêncio e anotando tudo: quais animais, em que altura da trilha, a que distância da trilha, quantos indivíduos.

São dados como esses que permitem que haja um acompanhamento da fauna e de eventuais mudanças no ambiente.

Este protocolo é repetido anualmente na época seca, há um protocolo de borboletas – que são bio indicadoras – realizado anualmente no final do inverno e um protocolo de flora repetido a cada cinco anos.

Os chamados “recursos naturais” hoje são destinados a alimentar quase 30x mais animais domesticados que silvestres.

Segundo Re:Wild, a Terra hoje tem 10 milhões de espécies, das quais 1 milhão correm risco de extinção. Segundo The Guardian, dos mamíferos hoje no mundo, 4% são selvagens, 36% são humanos e 60% são animais criados e domesticados. 30% das aves são selvagens, 70% são galinhas e outras aves de criação.

Quando somos pequenos aprendemos mais sobre os animais da “fazendinha” e os grandes mamíferos da África que dos nossos. Quando viramos adultos, acabamos esquecendo ou despriorizando o assunto. Quando a gente se dá conta, não sabe identificar imagens e nem sons, não sabemos onde vivem, o que comem.

Sem conhecer, é comum ter medo, achar que os animais são ferozes e estão na floresta apenas esperando entrarmos para nos pegar, nos picar, nos comer. Tendemos a perguntar “para que serve tal animal?”, quando a pergunta deveria ser: como estamos tratando os seres que habitam este planeta e estão completamente inseridos no meio natural?

Avistar fauna é lindo, viciante. Cada encontro, troca de olhar nos modifica, nos mostra que somos iguais a eles. Estes são alguns dos animais que vimos e conseguimos registrar em fotos.

Veja abaixo os animais que avistamos (e conseguimos fotografar, que é mais difícil ainda). Você conhecia e saberia reconhecer quais deles?

  • Macacos: bugio, prego e aranha, zogue zogue
  • Porcos: catitu e queixada
  • Cotia, Quati, Anta, Veado
  • Ariranha
  • Inhambu
  • Esquilo, Serelepe, Catipuru ou Caxinguelê
  • Cobra jiboia arco-iris
  • Araras, borboletas, mariposas, formigas, cupins, gaviões…

Há quem diga, e discordamos veementemente, que “conservação é uma conta de mais e menos”. Insinuando que se matarmos direta (caça) ou indiretamente (poluição, perda de habitat) menos que nascerem, “tudo bem”.

Nos últimos 27 meses visitamos 57 parques nacionais brasileiros. Destacamos duas questões relevantes para as quais não temos (ainda) comprovação científica, mas que observamos e sentimos na pele e nos guiam no sentido de preparação para os próximos meses e próximos passos:

 – O envolvimento da sociedade civil é crucial para o sucesso da gestão de uma unidade de conservação

 – A conservação é feita por pessoas, valorizando a diversidade

Nossa vivência no Parque Nacional da Serra do Pardo mostrou isso na prática. A equipe do ICMBio, com base científica e metodológica, uma visão ampla sobre as questões de conservação; os beiradeiros, com um conhecimento local insubstituível de quem é parte do ambiente, da história, uma visão profunda de cada passo dado.

Passamos duas semanas em um grupo de mais de 10 pessoas acordando antes das 5h todos os dias, fazendo trilhas no calor, dedicados a um único objetivo, com uma liderança exercida pelo exemplo.

Conservação é um trabalho que pessoas fazem de forma remunerada ou não para garantir que vidas não humanas continuem tendo chances nesta terra arrasada, cujos recursos naturais são extraídos no limite.

Vale lembrar que se nós humanos acabarmos com as espécies não humanas, certamente acabaremos com nós mesmos.

No link você pode acessar o mapa por onde passamos e ver em detalhes onde fica cada localidade citada acima:

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