Como assim: campeão de biodiversidade?

Chamar este parque de “campeão da biodiversidade” parece ser muito pretensioso e dar a sensação de algum tipo de competição. Não é nossa intenção e não temos nem capacidade de fazer isso. Nos baseamos em conversas com pesquisadores, em artigos e em dados científicos.

Biodiversidade é medida por quantas espécies são identificadas em determinada área. O Brasil tem 46 mil espécies de flora e 9 mil de vertebrados. Só na Amazônia há 30 mil de flora e 4,4 mil de vertebrados. A Europa toda tem 12,5 mil e 1,4 mil, respectivamente. Isso tudo sem contar invertebrados, fungos… a lista é longa

O biólogo Fábio Olmos destacou algumas características e trouxe evidências em um artigo do site OEco, recomendamos a leitura:

Segundo ele, no Parna do Viruá há 1.267 espécies de vertebrados, quase o mesmo número da Europa. 520 de aves e 500-600 de peixes, o maior número registrado no Brasil. E isso se dá por diversos fatores:

Aqui há rios de água branca e de água escura, cada um tem nutrientes distintos, uma flora diferente e, portanto, uma fauna diferente. Aqui tem uma área de pasto natural que fica alagada grande parte do ano (campinarana), onde determinados animais vivem parte do ano e outros no restante.

Aqui há serras, raras na Amazônia, um refúgio na floresta para aqueles animais que vivem nesse ambiente.

Tão importante como “ser” um lugar biodiverso é “ser protegido” e “ser mensurado”, e para isso precisa haver pesquisa. Por ser um parque nacional, esse ambiente está bem protegido e nele ocorrem diversas pesquisas.

Rodeado de pastagens e lavouras, de onde vêm o fogo ateado para “limpar” os terrenos e rebrotar o capim. Mas com uma equipe que faz manejo integrado do fogo / queimadas prescritas para evitar que o parque tenha um incêndio mesmo se as propriedades vizinhas queimarem.

E com uma estrutura acessível e bem mantida para os pesquisadores virem até aqui saber que espécies existem, contar frequentemente as populações.

Isso tudo não é exclusividade deste Parna, mas aqui parece que foram reunidas condições perfeitas para a manutenção e mensuração da biodiversidade. Vamos então conhecer e comemorar essas características.

A Estrada Perdida e o Pantanal Setentrional Roraimense

Logo que você entra no parque chama a atenção uma excelente estrada praticamente reta, bem plana. É de terra, mas com cascalho, larga, super bem feita. Não é comum em parques nacionais, infelizmente.

Ela se chama “Estrada Perdida”, por que será? Era para ser um trecho da BR174, a única ligação de Roraima com outros estados por terra, mas os construtores deram de cara com um pantanal. Pois é, um pantanal aqui no meio da Amazônia, o Pantanal Setentrional Roraimense.

Dizem que depois que alguns tratores foram engolidos após 40km de construção num terreno arenoso. Não vimos, mas não duvidamos também. O trabalho “se perdeu” e o nome ficou assim. Sorte a nossa, porque este é o acesso ao pantanal, uma visão que nunca imaginamos que teríamos na Amazônia.

Na beira da estrada, agora na época seca (chove mais de março a junho/julho), as valas formadas pela terra retirada para fazer a estrada têm lagos, onde vivem socós (símbolo do parque) tuiuiús, cabeça-seca, garças, patos, marrecas.

Por onde passam as araras e onde vivem os jacarés e as ariranhas. Os peixes ficaram ali aprisionados quando a água secou e viraram prato cheio para tantos outros.

Lá para dentro ficam as campinaranas do “megaleque”, por onde só é possível passar na seca. Segundo o arquivo do Fábio Olmos no OEco, que destacamos acima: “deltas internos de rios que, em períodos quando o clima era mais árido, morriam no interior do continente sem atingir o mar, deixando ali a areia que carregavam”.

Além dos buritizais, os campos imensos dão a chance de avistar muitos animais: veados, cachorro do mato e o rastro da onça, que ainda não quis se mostrar para nós. É aquele lugar para ir cedinho e ao final do dia, ficar em silêncio vendo o mundo natural acontecer.

A observação de aves e o berçário de peixes

Por mais que este parque não esteja na lista dos mais visitados, não houve um dia em que não havia um turista lá. Muitos estrangeiros que estão entrando da Guiana no Brasil indo sentido Manaus aproveitam para passar por lá, descansar e se maravilhar com a natureza. O parque nacional tem essa marca, essa referência, esse “porto seguro”.

Mas quem mais visita este parque parece ser os observadores de aves. Nunca havíamos acompanhado eles em ação, é impressionante. Eles chegam com seus binóculos, suas lentes de tamanhos que achávamos que não existiam, com microfones e gravadores potentes de som. Levam seu banquinho, chamam e esperam.

Eles geralmente chegam com uma lista e contratam um guia local que sabe onde encontrar as aves. Há quem se contente em ver, há quem precise de uma foto e há quem busque um som.

O engraçado é que eles nem ligam para as aves que a gente liga: as grandes, que aparecem voando em grandes bandos, fazendo barulho. Essas eles já viram, já fotografaram e já gravaram os sons. Eles procuram aves específicas, geralmente pequenas e difíceis de ver. Aquelas que nós leigos chamamos de “passarinho”.

Induvidável a diversidade deste parque para aves. Segundo Fábio Olmos no OEco, aqui foi quebrado o recorde de observação de aves em 24h: 225 espécies em 2008. Mas nos perguntamos: e os outros animais, por que será que não chamam tanta atenção?

E os peixes?

Este é um berçário de peixes, mas não existe essa categoria de “observador de peixe”. Quem se interessa por peixe em geral é pesquisador ou pescador. Existem alguns tipos de pescadores, incluindo aqueles que tiram seu sustento da pesca e aqueles que fazem uma pesca que alguns chamam de “esportiva”.

Pesca “esportiva”, por mais que o peixe seja devolvido à água, não nos parece uma atividade que combina com conservação, o peixe sufoca por muito tempo após brigar com uma linha, daí é colocado na água. Essa atividade não é permitida em parques nacionais.

Mas observar os peixes dentro da água sem manipulá-los é permitido. Difícil de registrar em fotos ou vídeos, mas é daquelas coisas que ficam na memória. Os rios daqui “parecem aquários”, segundo aprendemos a falar. Mas a verdade é que os aquários são feitos para parece

Nós gostamos de observar de tudo e o todo. Quem sabe não inauguramos um hobby de “observador de natureza em geral”?

Trilhas de pesquisa e mirante

Logo que começamos a pesquisar sobre o parque, um número nos chamou a atenção: 60km de trilhas. Uau, nos parques da região norte não é comum encontrar tudo isso não. Essas trilhas estão na chamada “grade de pesquisa”.

Um local selecionado pela sua diversidade (montanha e plano, floresta e campinarana, terra firme e área alagada, igarapés) onde há 12 trilhas de 5km cada uma, que se cruzam como em uma grade.

Por ali passam pesquisadores de todos os cantos e ramos de ciências para estudar, cada um com sua frequência. Isso tudo é parte do Programa de Pesquisa em Biodiversidade. As trilhas são prioritárias para eles, mas quando os estudos não estão acontecendo nós podemos acessá-las.

Trilhas retas, limpas de folhas para não fazer aquele barulho que pode espantar os bichos. O resultado para nós turistas? Uma explosão de bichos fáceis de ver: bugios (que aqui são ruivos, mas infelizmente não conseguimos fotografar), macacos-prego e micos de cheiro, que aqui parecem andar sempre juntos, catetos e o parauacu, que nunca havíamos visto.

O acesso à grade também é o acesso à trilha do mirante. Uma trilha curta, mas com uma subidinha íngreme no final. Vale a pena conferir a vista, mas lembre de levar bastante água. A trilha é na sombra, mas o calor é intenso!

Samaúma ou sumaúma?

Para quem quer se aventurar menos, tem mobilidade reduzida ou mesmo quem só quer sentar confortavelmente na floresta, não é que este parque tem uma trilha? Bem curta, são menos de 200m da sede até uma rainha samaúma, que também é conhecida como sumaúma, dependendo da região da Amazônia.

A trilha é numa plataforma de madeira larga, construída com madeira apreendida de extração ilegal. É um bom lugar para ler um livro, para ir todos os dias dar uma conferida se algo mudou, se algum bicho diferente aparece.

Ao lado dela há uma trilha que foi feita para bicicletas de montanha. Um pouco mais longa, mas que dá para percorrer em uma manhã. Ali foi um dos lugares onde vimos mais animais, é uma trilha menos visitada, mas super bem mantida.

Pena que não tínhamos bicicleta, teria sido legal percorrer não somente essa trilha, mas a Estrada Perdida várias vezes de bicicleta para poder ter ido mais longe. Fica a dica: se for ao parque, vá para ficar uns dias e leve sua bicicleta!

Um parque para chamar de casa

Encontramos no meio de Roraima um lugar para desacelerar e praticar uma visitação sem pressa e com qualidade: chegar e visitar de forma autônoma, priorizar trilhas logo cedo e no final do dia, poder refazer trilhas em diferentes momentos. No meio do dia armar uma rede e ler, de vez em quando parando para observar as aves e os macacos, além do vento.

Por onde passamos, vemos turistas dando “check” no atrativo, sequer entrando na água mas garantindo a postagem. Outros lugares com turismo massificado onde é difícil parar. Todos têm sua importância e beleza, mas poder parar, dormir num parque e sentir os efeitos físicos e mentais é uma experiência deliciosa (e necessária, pelo menos para nós).

Então: imagina um parque a menos de 2h de Boa Vista por uma BR asfaltada, onde você chega e pode ficar tanto num camping estruturado quanto num alojamento? De graça. Onde você tem mais de 60km de trilhas a pé, trilhas acessíveis a cadeirantes, uma diversidade de rios de água clara e água escura. Um pantanal e uma floresta?

“Dá” para visitar em dois / três dias, mas “dá” para ficar semanas por lá curtindo a vida, as vistas, os sons, revisitando os bichos. O melhor: de graça (requer reserva por email somente: ngi.roraima.usopublico@icmbio.gov.br). Bora conhecer este parque surpreendente no meio de Roraima?

E o nome: Uruá, Iruá, Viruá? Parece um trava línguas

O parque é cortado pelo rio Iruá, que desemboca no Anauá, que chega ao rio Branco. Pois é, o rio Branco fica em Roraima, apesar de ser o nome da capital do Acre. E desmboca no rio Negro, levando seus sedimentos para o arquipélago de Anavilhanas, onde havíamos acabado de ir. Está tudo relacionado, não tem jeito.

Mas por que então este é o Parna do Viruá e não do Iruá? Diz a lenda que quando a área estava sendo reconhecida para demarcar os limites um barqueiro local levou um técnico ambiental para percorrer o parque. O técnico ia perguntando o nome dos lugares e anotando.

“Como se chama este rio?”; “Este é o Anauá!”. “E este?”; “Este é o Iruá”. Com o som dos motores, o técnico teria ouvido “uiruá”, que ele anotou. Quando foram ler, não sabiam se era “u” ou “v”. Fato que acabou virando “Viruá”. Hoje alguns chamam o rio de Viruá, não mais de Iruá.

Quer mais uma confusão de nomes? O nome Iruá teria vindo do caramujo Uruá, que colocaria seus ovos nos troncos das árvores acima da linha que a água chegaria na próxima cheia. Seria o caramujo um visionário, um ser que sabe exatamente quanto a água vai subir? Quem sabe não haverá um pesquisador a ver se isso é lenda ou realidade?

A história acima é do Romério, que é uma enciclopédia viva do parque. Esperamos reverberar as histórias e as belezas, afinal um Parna é feito de biodiversidade, mas também de pessoas.

No link você pode acessar o mapa por onde passamos e ver em detalhes onde fica cada localidade citada acima:

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