Uau, que parque nacional incrível! Que confirmação de beleza, imponência, força e abundância vimos nas Cataratas! E que surpresa positiva ao ver que neste, que é o segundo parque nacional mais antigo do Brasil, há muito além das Cataratas para se visitar.

O fato de ser o segundo parque nacional brasileiro, criado em 1939, é importante, pois explica a mata primária que ainda resta neste parque. Mata primária é aquela que nunca foi derrubada, resta muito pouco disso de pé. Hoje restam 7,3% dessa mata original (https://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/especiais/dia_do_meio_ambiente/mata_atlantica_dia_do_meio_ambiente/), cada pedaço segue ameaçado e precisa ser valorizado. É disto que falamos quando adentramos ao Parque Nacional do Iguaçu.

Antes de tudo, vamos desfazer algumas confusões e misturas do nome Iguaçu:

  • Parque Nacional do Iguaçu: é o segundo mais antigo parque nacional brasileiro, um dos sete parques nacionais do estado do Paraná, com quase 170 mil hectares de área, dos quais a maior parte (51%) no município de Céu Azul; pouco mais de 7% da área do parque está na cidade de Foz do Iguaçu
  • Rio Iguaçu: é um rio que nasce perto de Curitiba e corre por todo o Paraná, hoje há seis barragens e usinas hidrelétricas que represam e usam suas águas para gerar energia
  • Foz do rio Iguaçu: é o local onde o rio Iguaçu deságua no Rio Paraná, fica fora dos limites do Parque Nacional, num local onde há uma tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina
  • Foz do Iguaçu: é uma cidade do oeste paranaense, onde o Brasil faz fronteira com Paraguai e Argentina; é uma das bases para se visitar o Parque Nacional do Iguaçu; sua área é de 61,7 mil hectares
  • Cataratas do Iguaçu: é o maior conjunto de quedas d’água do mundo em extensão; ficam numa região onde parte do rio é brasileiro e parte argentino; podem ser vistas visitando o Parque Nacional do Iguaçu (Brasil) quanto o Parque Nacional Iguazú (Argentina)

Parque Nacional, Cataratas e Foz do Iguaçu são coisas diferentes

Visitar as Cataratas do Iguaçu entrando por Foz do Iguaçu é uma importante, mas pequena parte de tudo o que pode ser visto e feito neste importante e bem protegido parque nacional. Abaixo falaremos sobre o Parque.

Nos últimos meses temos percorrido muita Mata Atlântica, tanto florestas ombrófilas densas (aquelas que conhecemos da serra do mar: https://entreparquesbr.com.br/sainthilaire-lange/) quanto ombrófilas mistas (a mata de araucárias: https://entreparquesbr.com.br/araucarias/). No Iguaçu voltamos a encontrar a floresta estacional semi-decidual, que havíamos conhecido no parque nacional da Ilha Grande (https://entreparquesbr.com.br/ilha-grande/).

Não somos biólogos ou engenheiros florestais, mas a sensação nessa mata é diferente das anteriores

Quem não puder visitar as três para comparar, aqui descrevemos um pouco do que sentimos:

  • A mata é menos úmida que a mata ombrófila densa ou mista
  • Algumas árvores perdem as folhas em determinadas estações do ano, ao contrário das outras que são perenes
  • As árvores são mais espaçadas entre si
  • Parece haver menos camadas: uma mata mais rateira e árvores enormes lá em cima

Por que isso é importante? Primeiro porque é diferente e vale a pena observar, sentir os cheiros, umidade, sons, luminosidade. Isso em si já é importante. Reconhecer a natureza, entender as relações, aceitar que ela tem diferenças e que a biodiversidade é o que gera a estabilidade, o equilíbrio entre a fauna, a flora e o que chamamos de “recursos naturais”, como os rios e cachoeiras.

Mas ressaltamos esses pontos porque nos pareceu ser mais fácil andar por essa mata. Há menos cruzamento de rios e áreas úmidas, há menos pedras e raízes para tropeçar, há mais espaço entre as árvores e menos risco de dar uma topada com a cabeça. Ainda sim, em geral caminha-se pela sombra e as trilhas são bastante planas. Ou seja, para quem não tem familiaridade em andar numa mata, a estacional semi-decidual pode ser uma boa entrada para a Mata Atlântica.

Para entrar nesse mundo, sugerimos cinco locais em volta do Parque Nacional do Iguaçu, que falaremos mais em seguida:

  • Capanema, visitando o rio Iguaçu e as trilhas do Silva Jardim e Taquaral
  • Céu Azul, visitando a ecotrilha e a trilha Manoel Gomes
  • Serranópolis do Iguaçu, pela trilha da onça
  • São Miguel do Iguaçu, pelo rancho Jaguaretê, cuja trilha ainda não foi batizada
  • Foz do Iguaçu, percorrendo as trilhas das bananeiras, do poço preto e percorrendo o trajeto da portaria até as cataratas de bicicleta

A cidade de Capanema fica na parte sul do parque, do outro lado do rio Iguaçu. O rio Iguaçu, neste trecho, é parte do parque nacional, não somente a parte terrestre do outro lado da margem. Por esse motivo, atividades como pesca e navegação não são permitidas, salvo com permissão do ICMBio. Ou seja, não é permitido chegar a Capanema e usar o seu próprio barco, caso tenha, é necessário contratar uma empresa autorizada pelo ICMBio para tal.

Quando visitamos o parque, em fevereiro deste ano, a gestão turística a partir de Capanema estava sob gestão da Três Fronteiras (https://www.instagram.com/tresfronteirastur). Usamos esse tempo verbal porque enquanto escrevemos este relato está acontecendo a seleção da empresa concessionária que fará a gestão do uso público de todos os atrativos do parque, então pode ser que no futuro se mantenha ou mude, convém se informar no site do ICMBio (https://www.icmbio.gov.br/parnaiguacu/guia-do-visitante). Isso é importante para todas as empresas que citaremos ao longo deste relato.

O rio Iguaçu neste trecho é amplo e parece calmo, mas na verdade é bem raso e com pedras no fundo, o que dificulta a navegação. Com base no nível do rio é possível chegar até as trilhas. No nosso caso, pudemos visitar a trilha do Silva Jardim sem percorrer de barco o rio de mesmo nome, que estava muito baixo. Não pudemos visitar a trilha do Taquaral, pois o rio estava muito baixo para chegar até lá.

O passeio de barco pelo rio em si já é um atrativo. Observar sua água cristalina, o fundo pedregoso, a imponência das árvores e a fauna que chega até as margens do rio para se banhar ou beber água já é lindo em si. A trilha do Silva Jardim é de nível fácil, são cerca de 6km ida de volta até a cachoeira do Silva Jardim. Ao longo do trajeto vimos árvores imensas, como a peroba rosa, o angico e a canafístula, árvores que podem chegar a 40 metros de altura.

Apesar de seus troncos serem largos e em geral bem separados na altura do chão, suas copas encontram-se no topo e muitas vezes é difícil entender qual árvore original as folhas que vemos lá em cima. Como falamos acima, caminhar por essa mata sombreada é muito gostoso, pois há pouco risco de tropeçar e é possível caminhar olhando para cima. Um dos “obstáculos” são as teias das néfilas, as aranhas do fio dourado. Inofensivas, mas importante respeitar o trabalho que tiveram construindo essas obras que garantem sua sobrevivência.

Como se o passeio de barco e a trilha não fossem suficientes, no final da trilha há uma cachoeira onde é permitido se banhar. A água na temperatura “certa”, diversos pontos para ficar somente sentindo a água cair e também para mergulhar completamente. Lembrando que “mergulhar” não necessariamente significa pular na água. Esta região tem muitas pedras que não são necessariamente avistadas de fora. Pular de fora para dentro: não! Entrar com cuidado, encontrar um ponto mais fundo e enfiar a cabeça embaixo da água: com certeza!

Era de Capanema que partia a balsa que cruzava o rio e dava acesso à antiga “Estrada do Colono”. Essa estrada funcionou por muitos anos, ligando Capanema e Serranópolis do Iguaçu, são cerca de 18km. Era usada para contrabando de mercadorias do Paraguai e tráfico de drogas, entre outras atividades lícitas. Após sucessivas tentativas, após de uma demanda da UNESCO para reconhecer o parque como Patrimônio Natural da Humanidade, a estrada foi desativada nos anos 90.

Algumas pessoas em Capanema e Serranópolis do Iguaçu ainda sentem que as cidades perderam com o fim da estrada e pedem que a mesma seja retomada. Hoje a estrada foi tomada pela mata e qualquer recuperação significaria a construção, com sérios impactos ambientais. É muito bom circular por essa área e ver o espaço que o turismo está tomando, permitindo que este importante parque não seja quebrado ao meio por uma estrada que atende ao interesse de poucos, mas interfere no interesse de todos, que é a conservação da área.

A cidade de Céu Azul fica na parte norte do parque e, apesar de pouco visitada pelos mais de 2 milhões de turistas que visitam as Cataratas anualmente, é onde está a maior parcela do parque nacional em termos de área. Há uma base avançada do ICMBio de onde partem três trilhas, duas das quais abertas e uma terceira em processo de abertura: Ecotrilha, trilha Manoel Gomes e trilha do Rio Azul.

Dentro da nova concessão que deverá assumir o parque este ano, pode ser que comece a ser cobrada entrada, o que ainda não ocorre.

A Ecotrilha é amplamente usada pela comunidade de Céu Azul como um local para prática de caminhada, contemplação e educação ambiental. Dados extra-oficiais indicam que mais de 20 mil pessoas visitam esse pólo. Pode parecer pouco se compararmos com os 2 milhões que visitam as Cataratas, mas esse número é muito maior que o total de visitantes da maior parte dos outros parques nacionais (https://www.icmbio.gov.br/portal/images/stories/comunicacao/publicacoes/monitoramento_visitacao_em_ucs_federais_resultados_2019_breve_panorama_historico.pdf).

O trajeto é fácil e cheio de informações sobre a flora local. Há muita diversidade e em pouco mais de 1km é possível avistar as “gigantes” da Mata Atlântica que citamos mais acima.

Seguimos um pouco além pela trilha Manoel Gomes, que tem cerca de 3km de extensão. Ela passa por algumas nascentes e cruza rios, muitos dos quais estavam completamente secos, o que, segundo relatos do pessoal que nos orientou, nunca ocorreu antes. A situação da seca nessa região é muito preocupante, parece ter extrapolado os limites do que acreditava-se ser um efeito sazonal ou normal.

O que mais chama a atenção nesta trilha, além da beleza? O tamanho das perobas rosa, que roubam a cena, testemunham o valor de uma mata primária, onde as árvores com “madeira de lei” permanecem de pé, mantendo viva a floresta como um todo.

Em Serranópolis do Iguaçu há uma entrada para a área do parque através da Trilha da Onça. Ela foi idealizada e executada por um casal apaixonado por ciclismo e pela conservação. Ao longo de anos, foram conversando com o ICMBio e com o Projeto Onças do Iguaçu, com quem desenvolveram essa trilha de 11km na beira do parque, pelo lado de dentro. Totalmente sombreada, passa por rios, sempre com pontes e excelentes indicações, não há como se perder.

Logo no início da trilha percebe-se o cuidado que foi tomado para que o impacto fosse o mínimo, a manutenção até hoje é feita pelo casal Maury e Katia, pessoas incríveis e que tomaram essa decisão por amor ao meio ambiente. Há um antigo saleiro bem no início da trilha, que foi mantido como era quando a trilha foi aberta, mostrando as visitantes como é feita a caça em locais como esse.

Hoje a caça nessa região foi eliminada, dado que a visitação tomou tal proporção, que espantou os caçadores. Alguns seguem caçando em outras áreas, a maioria desistiu da atividade. É impressionante o impacto que um casal pode trazer para toda uma região, uma unidade de conservação, uma espécie. Que no mundo tenhamos mais casais inspiradores e fazedores como Maury e Katia.

Em São Miguel do Iguaçu há mais um exemplo inspirador sobre como atuar na conservação de forma sustentável economicamente. O Marcos e a Josi criavam gado de leite nos limites do parque. Após alguns ataques de onças à sua criação e ao fato que financeiramente não valia a pena esse tipo de atividade, com apoio do Projeto Onças do Iguaçu desenvolveram um rancho onde têm a Toca da Onça, são suítes para alugar e pernoitar, um restaurante / lanchonete, uma quadra de vôlei e uma trilha, que está para ser inaugurada.

Após aprender mais sobre a importância da onça pintada e do risco que a mesma corre, viram que podiam desenvolver um negócio para conviver com ela, ao invés de concorrer. O gado na beira do parque é presa fácil que atrai as onças, colocando-as em risco. A atividade de turismo mostrou-se muito mais lucrativa, hoje estão expandindo, são referência para receber turistas e ajudam direta e indiretamente na conservação. Tornaram-se defensores das onças e educadores de quem estiver passando por lá. Além de serem uma simpatia.

A trilha tem cerca de 6km e tem um formato do número 8, cruzando uma ponte e chegando a um rio. Chama a atenção a quantidade de xaxins na segunda metade da trilha. Beleza que contrasta com a seca, dado que nessa região, cercada por lavoura, o regime de chuvas mudou completamente e hoje há uma seca histórica, já há cerca de quatro anos.

Finalmente chegamos a Foz do Iguaçu! O que achamos que seria o único atrativo tornou-se um importante e imponente atrativo, mas não o único: as Cataratas do Iguaçu. Antes de falar das Cataratas, vale dizer novamente que cerca de 2 milhões de pessoas visitam as Cataratas anualmente, usufruindo de excelente infra-estrutura e diversas opções de passeios. É possível inclusive fazer um passeio de barco para ter uma outra perspectiva das Cataratas.

Em termos de infraestrutura, o acesso às Cataratas se dá por ônibus, que percorre cerca de 11km entre a portaria e o primeiro mirante. Confortável, acessível, tudo de bom. Mas ao pegar o ônibus o turista perde toda a vivência na mata primária, a possibilidade de encontrar fauna, passar pela escola parque, pelo Projeto Onças do Iguaçu. Enfim, ao ir de ônibus perde-se uma grande oportunidade de viver o parque.

Existe a opção de ir a pé, mas pode ser um pouco cansativo, dado que nessa região faz muito calor e no caminho há um ponto de abastecimento de água potável, ou de bicicleta, que fizemos e indicamos fortemente. O passeio de bicicleta leva um período inteiro, sem correria. Nesse percurso, além de conhecer a natureza exuberante é possível conhecer a história do parque, na qual Santos Dumont teve grande importância, ao visitar e fazer lobby com o então governador do estado para que a área passasse a ser pública.

Além de ter sido uma delícia percorrer o parque de bicicleta, por estarmos em mais contato com o mundo natural, ainda fomos acompanhados por uma bióloga, a Bruna, que nos ensinou muito sobre a história e natureza do parque nacional (https://www.instagram.com/iguassubybikebrazil/).

Levou pouco mais de 20 anos para que o parque nacional fosse criado, mas ainda assim era uma época em que a região era muito pouco habitada e ainda não havia ocorrido desmatamento, o que se mantém até hoje. Muitos parques nacionais foram criados nos anos 2000 em áreas já parcialmente degradadas. Hoje em recuperação, mas não conferem a imponência que uma mata primária como a do Iguaçu ainda tem.

O acesso às Cataratas é aberto todos os dias entre 9h e 17h, exceto segundas feiras. Com isso, não é possível apreciar o nascer ou pôr do sol no parque. No entanto, guias são autorizados a acessar o parque em horários alternativos, o que recomendamos para que a visitação possa ser feita em extremos do dia, quando há pouca gente e não é tão quente.

Tivemos uma belíssima experiência durante o pôr do sol. Além da beleza e da tranquilidade de termos ficado praticamente sós no parque, é no pôr do sol que ocorre o fenômeno do baixão dos andorinhões, que vêm de longe às centenas ou milhares e fazem vôos rasantes em direção a uma fenda atrás das cataratas, onde passam a noite. O barulho que fazem é tão alto que é possível ouvir mesmo com o barulho das cataratas.

Vimos também um bando de urubus planando como se estivesse admirando o pôr do sol e tivemos a sorte e privilégio de ver uma família de jacutingas, ave ameaçada de extinção, andando calmamente na parte de cima das cataratas e ensinando os filhotes a voar.

Ainda pelo acesso de Foz é possível fazer a trilha das Bananeiras, cerca de 2km, que leva até a parte de cima do rio, onde ele parece que não sabe que sofrerá uma queda como a das Cataratas. Não é possível se banhar, a correnteza é bastante forte mesmo assim. Mas a beleza é indescritível.

Há também a trilha do Poço Preto, de 9km, mas que estava fechada para visitação neste momento até que seja definida a nova concessionária. Além disso, uma onça pintada teve cria e estava vivendo perto da trilha, que foi fechada para protegê-la e a seu filhote.

E o lado argentino?

Sim, nós fomos para a Argentina conferir! Muito se fala sobre a infra-estrutura, sobre a natureza serem melhores aqui ou ali. Existem diferenças, mas vale a pena ir a ambos, se possível. No lado argentino nos surpreendemos principalmente com a vista da Garganta do Diabo, é como se fosse um grande ralo por onde a maior parte do Rio Iguaçu cai, formando as Cataratas. Não há mais bonito, mas imperdível, mais nada. Há um complemento de beleza, um local onde a proximidade de água é tamanha, que o volume chega a hipnotizar.

E o Parque das Aves?

Ao lado da entrada do parque por Foz do Iguaçu está o Parque das Aves. Ele não faz parte do parque e não fica na área do parque, mas há muito trabalho feito em conjunto. É uma instituição que colabora na conservação de aves da Mata Atlântica, onde em 16 hectares fazem um trabalho de recuperação de aves que provém de acidentes e contrabando, entre outros. Cerca de 40% das aves que chegam (eles não recebem aves diretamente, mas através do IBAMA), não resistem; 30% são reinseridas no mundo natural e 30% não têm condições para se reabilitar e permanecem no parque.

Eles também têm um importante trabalho de pesquisa e reprodução de espécies ameaçadas de extinção, sendo grande referência para que possamos ter no futuro mais aves nativas da Mata Atlântica.

No link você pode acessar o mapa por onde passamos e ver em detalhes onde fica cada localidade citada acima:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.